Até hoje ninguém sabe dizer a hora exata que ela apareceu, mas os pilotos que aterrisavam no Santos Dumont foram os primeiros a testemunhar o fenômeno. Era uma manhã quente de primavera quando a misteriosa bolha colorida surgiu nos céus do Rio de Janeiro.

Ela trocava de cor, alternando entre tons vermelho vivo até o azul turquesa. Calculava-se que media uns mil metros de diâmetro e possuía a superfície lisa e brilhante como metal.

Minutos depois do avistamento a notícia se espalhou pela cidade. Helicópteros das redes de televisão circundavam a Bolha e enviavam imagens ao vivo para os jornais matutinos. Repórteres e comentaristas arriscavam explicações para aquele acontecimento. Chutavam que a causa era meteorológica ou talvez uma invasão alienígena. Teve gente que ficou assistindo televisão e não foi trabalhar, colocando a culpa na Bolha.

Uma equipe da defesa civil conseguiu estimar a posição da Bolha depois de rodarem por horas fazendo cálculos e medições. O objeto permanecia imóvel e flutuava a uns cento e cinquenta metros de altura no centro da cidade, em cima do Paço Imperial.

O prefeito foi o primeiro a se manifestar. Disse que a população não precisava entrar em pânico e que iria solicitar auxílio ao governo do Estado. Decretou estado de emergência e pediu “doações para os desabrigados”. O assessor de imprensa pediu desculpas e corrigiu a fala do político logo após a entrevista, quando percebeu que o prefeito tinha copiado um discurso feito após as enchentes de verão.

A população não entrou em pânico como pensava o prefeito. Quem está acostumado com assaltos e balas perdidas não passou perrengue. Alienígenas não eram prioridade na lista de preocupações dos moradores.

A multidão se acumulava no Paço Imperial para observar o acontecimento e não demorou para o primeiro camelô aparecer vendendo uma cervejinha.

O governador estava em viagem pela Europa, mas divulgou nota à imprensa declarando que “o Estado estaria disposto a colaborar no que fosse necessário, e que iria apurar as falhas que provocaram o acidente”. A assessoria de imprensa também teve que corrigir o discurso do político…

Ao final da manhã a Bolha era notícia no mundo e os repórteres acumulavam toneladas de especulações e teorias. A mais aceita até aquele momento falava que o objeto tinha origem extraterrestre, vinha em missão de paz e poderia oferecer tecnologias revolucionárias para a humanidade. Os americanos ficaram enciumados e não entendiam a razão dos Ets preferirem o Brasil.

Pesquisadores da Nasa estavam ansiosos para estudar o fenômeno e enviaram uma mensagem ao Ministro de Ciência e Tecnologia solicitando livre acesso à região da Bolha. O pedido foi encaminhado para Brasília porque precisava de um parecer da Assessoria de Cooperação Internacional de Projetos Científicos.

A região em torno do Paço Imperial lotou e a multidão se aglomerava ao longo da Avenida Primeiro de Março e da Rua da Assembléia. Perto do meio dia os donos de restaurantes colocaram as mesas na calçada, procurando a melhor posição para os clientes apreciarem a Bolha enquanto almoçavam. Filas se formavam e o faturamento naquele dia foi excelente.

No finalzinho da tarde alguém sacou um cavaquinho e formou-se a primeira roda de samba embaixo da Bolha. Quem estava por ali ficou para curtir a música e foi se misturando com quem saía do trabalho. A farra foi até o dia amanhecer, quando os caminhões de limpeza da Comlurb expulsaram os últimos bebuns com jatos d’água.

Nos dias seguintes a confusão continuou, mas dessa vez eram os camelôs que disputavam o precioso espaço embaixo da Bolha. Vendedores de comidas se misturavam aos comerciantes de bugigangas. Os ambulantes ofereciam bonés, chaveiros e camisas com fotos da Bolha, tendo o Pão de Açúcar e o Corcovado ao fundo. A muvuca aumentava dia após dia, com muita gente andando de um lado para o outro. A polícia tinha trabalho porque frequentemente aconteciam arrastões bem embaixo da Bolha.

As semanas passaram e o roteiro da Bolha entrou no cardápio dos passeios oferecidos pelas agências de turismo. Vans levavam os turistas para o Corcovado, Pão de Açúcar e depois paravam na região da Bolha para almoçar. Só que nesse novo mercado de exploração dos turistas teve gente que exagerou. Um gaiato foi preso em Copacabana acusado de vender pacotes que prometiam visitar o interior da Bolha e almoçar com extraterrestres…

O prefeito declarou a Bolha como patrimônio cultural do Rio, aproveitando a onda de entusiasmo da população. Nos meses seguinte os imóveis localizados nas proximidades do objeto valorizaram. A região foi revitalizada e ganhou novos bares, restaurantes e hotéis. Durante o dia turistas inundavam as calçadas, filmando e tirando selfies com a Bolha. A galera do happy hour comparecia no finalzinho da tarde e emendava um chopinho atrás do outro até altas horas da madrugada. O lugar ficou conhecido como “Baixo Bolha” e virou ponto de agitação cultural, local de encontro de artistas, poetas e biriteiros. Nas mesas ocorriam discussões filosóficas acaloradas sobre a origem da bolha e até debates técnicos em relação ao material de sua composição.

A zoada foi crescendo tanto que o governo foi obrigado a acabar com a bagunça. A Secretaria de Segurança instaurou o toque de recolher a partir da meia noite no Baixo Bolha. Os proprietários de bares e restaurantes se sentiram prejudicados pelo novo horário de funcionamento, mas os donos de hotéis apoiaram a medida porque o barulho atormentava os hóspedes. Entre liminares e mandados de segurança, autorizando e desautorizando o toque de recolher, os dias iam se passando e bem ou mal todo mundo faturava.

Três meses depois de chegar em Brasília a solicitação dos cientistas americanos foi respondida. O Termo de Cooperação Técnico Científica foi aceito, mas era necessário que os gringos preenchessem as informações de um questionário de quase quarenta páginas, além de apresentar o plano de trabalho com tradução juramentada para o português.

Perto do fim do ano correu a notícia num aplicativo de celular que a Bolha ia fazer um show de fogos e raio laser. Pela primeira vez na história da cidade a festa de Copacabana sentia a concorrência. Falaram também que os extraterrestres iam sair da nave para distribuir comida e garrafas de vinho. O lugar virou um inferno logo nos primeiros dias de dezembro e teve gente que acampou por ali na espera das doações. Alguns cambistas faturaram alto vendendo lugar na fila do reveillon da Bolha.

No dia trinta e um o centro da cidade recebeu quase um milhão de pessoas. Perto da meia noite a polícia contabilizava cinquenta e quatro ocorrências, com direito a três baleados e trinta e quatro pessoas detidas. Na hora da virada a expectativa era grande, mas nada aconteceu. Não teve pernil com farofa, nem fogos ou champagne. A Bolha continuou ali parada, flutuando sobre a cabeça das pessoas que festejavam e atiravam jatos de cidra uma nas outras.

O carnaval chegou em fevereiro e vários blocos desfilaram embaixo da Bolha. Cariocas e turistas pularam atrás do “Bolha Preta” e do “Prástico Bolha”, os mais concorridos daquele ano. Teve até um bloco infantil, o “Bolhinha de Sambão”, que garantiu a diversão da pirralhada. Os foliões bebiam, dançavam e ignoravam solenemente a presença do artefato desconhecido que pairava nos céus da cidade.

Passados vários meses o aeroporto Santos Dumont continuava fechado para pousos e decolagens. As autoridades proibiram o tráfego aéreo próximo da Bolha porque não sabiam se havia risco de acidente. O governador empurrava o caso com a barriga, mas a situação complicou quando um Promotor que ia para Brasília ficou inconformado de ter que se deslocar até o aeroporto do Galeão. A autoridade decidiu instaurar inquérito para apurar responsabilidades e exigiu a reabertura do aeroporto.

O governador se esquivou e disse que não cabiam ações por parte do Estado, porque o objeto estava estacionado a cento e cinquenta metros de altura e que, apesar de ser não identificado, ainda se tratava de um objeto voador. O político transferiu a culpa para a Agência de Aviação Civil, dizendo que somente eles poderiam interferir naquele assunto.

O Promotor foi em cima da Agência, que imediatamente tirou o seu da reta, alegando que notificou o objeto sobre a irregularidade de estacionar nas proximidades do aeroporto, mas não teve resultado. Para remover a Bolha precisava de ajuda da polícia.

Vossa excelência determinou então que a Polícia Federal coordenasse a retirada, só que o Diretor Geral respondeu que não poderia intervir porque o efetivo estava todo comprometido naquele momento. A PF passou a bola para a Polícia Militar do Rio de Janeiro que, sem ter como se livrar do pepino, se viu obrigada a montar uma megaoperação às pressas, como sempre.

Àquela altura muitos cariocas apoiavam a expulsão do objeto desconhecido, porque o consumo de drogas e a violência eram intensos na região da Bolha. Também crescia o movimento de religiosos que associavam o fenômeno da Bolha à espíritos diabólicos e outras entidades do mal. Todas as tardes de domingo os crentes aproveitavam que o local ficava vazio e promoviam cultos ali embaixo, na tentativa de exorcizar a Bolha. O OVNI não era mais unanimidade entre os cariocas.

No o dia marcado para a operação policial a Bolha permanecia lá, pairando no ar silenciosamente, brilhosa e multicolorida como sempre. A PM chegou com os caveirões e isolou a área, anunciando pelo megafone que a Bolha deveria deixar o local, caso contrário eles iam “usar da força”. Sem obter resposta a tropa de choque avançou, atirando bombas de efeito moral na direção da Bolha.

Os curiosos que observavam a ação da PM ficaram assustados com as bombas que caiam sobre suas cabeças. Logo começou um corre corre pelo centro da cidade e mais bombas foram lançadas, agora em direção de quem passava correndo. O povo ficou acuado no meio do tumulto não sabia para onde ir.

Para complicar ainda mais outro grupo surgiu no meio da confusão. Os integrantes da ONG “Sou amigo da Bolha” vieram protestar contra a operação policial munidos de faixas e cartazes. Os soldados da PM respiraram aliviados. Estava difícil acertar a Bolha, mas agora eles sabiam muito bem em quem bater. O comandante da operação acionou a cavalaria e o pau cantou no lombo dos manifestantes.

Quando todos achavam que a situação nāo poderia piorar, um PM teve a infeliz ideia de dar um tiro para o alto. Ao ouvir os disparos outros soldados sacaram revólveres e fuzis e o tiroteio começou. Balas zuniam para todos os lados e teve policial acertando inocente e policial acertando policial. O comandante tentava coordenar a poliçada e ordenava que o fogo devia se concentrar no “gordo”, codinome escolhido para identificar a Bolha.

Os soldados miravam os fuzis para a Bolha e disparavam compulsivamente, mas os projéteis atravessavam o objeto sem provocar qualquer dano. Foram mais de trinta minutos de fogo pesado, até que a fumaça das bombas se misturou à dos fuzis e uma névoa densa impediu enxergar qualquer coisa além dos dez metros de distância.

Vinte minutos depois, quando o nevoeiro dispersou, um flanelinha que observava a confusão entocado atrás de uma banca de jornal, olhou para o céu e gritou.

— Caraca maluco, o bagulho sumiu!

Um a um, os participantes do conflito ergueram os olhos para o céu e notaram que a Bolha não estava mais lá. Silenciosamente ela desapareceu dos céus cariocas.

Os integrantes da ONG que sobreviveram sem graves ferimentos deixaram o local. Eles se abraçavam e cantavam versos de “Pra não Dizer que não Falei das Flores”, comemorando a fuga da Bolha e a vitória sobre as forças de repressão. Os mais animados permaneceram por ali mesmo, procurando um boteco aberto para tomar um chopinho e devanear sobre aquele dia histórico.

A PM deixou o local e declarou aos jornalistas que a operação foi um sucesso:

— O elemento se evadiu em desabalada carreira, mas a polícia continuará ocupando o local. O céu está pacificado e a operação no Santos Dumont pode ser reativada — declarou o comandante.

Naquela tarde a Bolha sumiu e nunca mais foi localizada.

Quarenta e cinco dias depois do grande confronto no Paço Imperial e do desaparecimento da Bolha, a embaixada norte americana recebeu um comunicado que autorizava os cientistas a entrarem no país para estudar o OVNI.

Fim