Juciléia teve dificuldades em convencer o marido a se mudarem para a Lua. Gê havia trabalhado por lá durante os anos sessenta, na época que o governo iniciou o projeto de colonização. Ele não nutria saudades daquele lugar e sempre lembrava que “a comida era horrível e fazia muito frio”.

Desempregada e sobrevivendo de favores, a mulher estava determinada em arriscar uma nova vida no satélite. Juciléia não tinha medo, era batalhadora e achava que a Lua ofereceria melhores oportunidades. Depois de muita discussão o casal partiu no foguete transportador Atlas, carregando permissões de trabalho temporário de dois anos e nenhum dinheiro no bolso.

A Lua era oficialmente parte da Terra e o Brasil abocanhou um naco do território. O país foi signatário do “Tratado sobre os princípios que regem as atividades dos Estados na exploração e utilização do espaço exterior”. O documento de nome comprido também era conhecido como a “Lei da Lua” e conferia certa autonomia aos países membros nas suas regiões administrativas, mas estabelecia que a ONU era responsável pela administração central.

Era um lugar fabuloso. A baixa incidência solar deixava as pessoas com a pele branquinha, prevenia rugas e o envelhecimento precoce. Corpos “malhados e bombados” desfilavam pelas praias artificiais, uma vez que os moradores podiam consumir anabolizantes à vontade para combater os efeitos da gravidade reduzida. O governo proibia atividades industriais e estimulava o setor de entretenimento, atraindo turistas de todas as partes para os famosos cassinos e hotéis da Lua. Impulsionados pelos gastos literalmente “astronômicos” dos turistas, os empresários lunares faturavam alto e conseguiam manter um majestoso padrão de vida, flutuando a trezentos e oitenta milhões de quilômetros da Terra.

Juciléia e Gê desembarcaram em Seleucus, cidade brasileira que ficava no interior de uma cratera cercada por montanhas de três mil metros de altura. Gê foi trabalhar na construção civil espacial e o emprego lhe dava direito à moradia no alojamento dos funcionários e ticket alimentação. Enquanto isso Juciléia acumulava a rotina de babá e empregada doméstica na casa de uma família de classe média, que também havia se mudado recentemente para a Lua. Naquele tempo as mães ainda não deixavam as crianças aos cuidados dos robôs.

Gê continuou reclamando da Lua, mas Jucélia se adaptou rapidamente e tomou gosto pelo local. Os dois só se encontravam nos finais de semana, domingo de tarde, quando ela estava de folga e ia visitá-lo no alojamento. A vida não prosperava, mas também não podiam se queixar. As mensagens que Juciléia recebia dos parentes na Terra e as notícias da televisão só mostravam desgraças. Violência urbana em alta, empregos e salários em baixa. Ela tinha certeza que havia tomado a decisão correta.

Um domingo à noite ela contou ao marido que estava grávida. Gê ficou muito feliz e revelou uma novidade também. Fazia tempo que ele juntava sobras de material e pretendia construir um iglu para os dois. O momento não poderia ser mais oportuno. A criança ia nascer e os três poderiam morar juntos sob o mesmo teto.

Escolheram um local mais afastado do centro para instalar o iglu, na borda da cratera, região acinzentada e inundada de poeira lunar. Gê convocou alguns colegas do serviço e fizeram um mutirão para agilizar a obra. Em duas semanas o iglu estava pronto. Era apertado para os padrões lunares, com apenas vinte e cinco metros quadrados, mas o isolamento térmico era bom e a reciclagem de água funcionava. Faltava apenas comunicar a mudança aos patrões.

“Como assim mudar, você vai trabalhar em outra casa Juciléia?” perguntou Dona Célia, assustada com a possibilidade de perder a serviçal de confiança.

“Não Dona Célia, é que eu e o Gê construímos um iglu na colina e vamos nos mudar para lá. A senhora sabe . Todo mundo precisa ter o seu cantinho” Juciléia argumentou.

Ju e Gê carregaram seus escassos objetos pessoais e se mudaram para o iglu. Em menos de um mês eles deixaram o igluzinho muito aconchegante, apesar das gambiarras tecnológicas necessárias para se viver na superfície da Lua. Gê montou uma horta com plantas geneticamente modificadas e construiu um cercadinho pressurizado para criação de galinhas. A situação estava melhorando e a vida corria bem, tão bem que Juciléia resolveu chamar os parentes que tinham ficado na Terra.

Corrompendo as pessoas certas era fácil conseguir permissões de trabalho falsificadas. Os parentes de Juciléia migraram para a Lua e construíram outro iglu na colina empoeirada. A notícia se espalhou rapidamente na Terra e algum tempo depois os vizinhos de Juciléia também foram parar na Lua. E depois chegaram os parentes dos vizinhos. Até que os vizinhos dos parentes dos vizinhos também chegaram. E nunca mais parou mais de chegar gente.

No começo foi uma boa. As leis ambientais na Lua eram muito rígidas e as cidades brasileiras sofriam com a dificuldade de destinar corretamente os entulhos e material eletrônico descartado. As autoridades faziam vista grossa para os inúmeros catadores que apareceram, porque eles recolhiam tudo o que encontravam e acabavam com esse aborrecimento. Os moradores mais antigos de Seleucus também não reclamaram dos novos habitantes, porque a mão de obra não-robotizada ficou abundante e agora podia se pagar menos da metade do preço pelos serviços domésticos.

Gê nunca entendeu porque quase todas as praças e avenidas na Lua levavam o nome “Armstrong”. A vila dos iglus não fugiu à regra e ficou conhecida entre os moradores do local com o nome de “Comunidade Armstrong”. Em pouco tempo já existiam mais de trezentas habitações apinhadas umas sobre as outras, compartilhando antenas, água, recicladores de oxigênio e todos os equipamentos lunares essenciais. A vida na comunidade não era um fácil, mas eles iam se virando. Até que um evento acidental mudou o destino de todos.

Newton tinha nove anos quando a confusão aconteceu. O filho de Juciléia brincava perto de casa quando encontrou dois adolescentes que passeavam em motolunares pelas trilhas empoeiradas da Comunidade Armstrong. Os rapazes provocaram a criança, zombando da cor da sua pele e dos trajes espaciais remendados que ela vestia. Newton era um menino tranquilo e nunca havia se envolvido em brigas, mas era orgulhoso como a mãe e por isso não aceitou as provocações. Nascido e criado na lua, ele possuía destreza e agilidade nos movimentos muito superiores a dos turistas terráqueos, de maneira que acertou em cheio um pedregulho lunar no capacete de um dos adolescentes. O projétil trincou a viseira, causando a despressurização instantânea do traje.

Os bombeiros lunares resgataram o rapaz ainda com vida, mas ele foi encaminhado ao hospital em estado grave. O caso foi notícia em todas as redes de televisão da Terra e da Lua.

A polícia isolou imediatamente a favela Armstrong, que foi considerada área de risco. A população de Seleucus se comovia ao ver diariamente nos jornais a luta pela vida do adolescente terráqueo. O menino teve um edema cerebral provocado pela hipóxia e os boletins médicos diziam que se ele sobrevivesse ficaria com sequelas gravíssimas. Familiares do rapaz eram entrevistados e declaravam repúdio àquele ato cruel, pedindo punição exemplar para o agressor. Campanhas contra violência veiculadas nas redes sociais exigiam que as autoridades removessem a favela antes que aquele local se tornasse um ninho de delinquentes e uma ameaça para a paz social.

Newton foi detido em flagrante naquele mesmo dia e como era menor de idade Juciléia também foi levada, sob acusação de “negligência educacional materna”. Duas semanas depois eles foram encaminhados ao Palácio de Justiça para serem julgados.

O defensor público que atendeu mãe e filho era muito experiente e quase reverteu o caso, mas durante o julgamento os promotores descobriram que a permissão de trabalho de Juciléia estava vencida há três anos. Ponto final. Não havia como esconder essa contravenção. O júri a considerou culpada por trabalhar sem autorização e entendeu que o menino era um delinquente por causa dos maus exemplos que recebia em casa. A violência do menino contra os cidadãos de bem era um fato deplorável e hediondo. O juiz inventou uma pena: banimento imediato para a Terra.

Após o julgamento as autoridades locais atenderam aos pedidos dos moradores de Seleucus e mobilizaram os tratores lunares para iniciar a remoção da favela Armstrong. Foi fácil encontrar os argumentos para justificar aquela hostilidade. Era preciso acabar com a baderna na Lua e não havia o que se discutir, uma vez que quase todos os favelados trabalhavam sem permissão e haviam construído os iglus sem alvará.

Quando tudo parecia perdido, a ONG “Mundo da Lua” pediu à justiça que barrasse a remoção. A organização humanitária alegava que o trânsito interplanetário era controlado pela ONU e as autoridades brasileiras não tinham autonomia para expulsar aquelas pessoas. A intenção foi boa, mas os argumentos não conseguiram deter a truculência do governo. Em poucas horas os tratores derrubaram todos os iglus e os moradores da favela Armstrong foram deportados.

Gê, Juciléia e Newton voltaram para a Terra sem nenhum dinheiro no bolso.

Anos depois da expulsão dos moradores da favela Armstrong os habitantes de Seleucus viviam uma nova realidade. O lixo nas ruas voltou a se acumular e os serviços ficaram mais caros. Os robôs realizavam algumas tarefas domésticas, mas custavam o triplo e exigiam manutenção regular. Muita gente voltou para a Terra porque simplesmente não suportava mais ter que lavar e passar o próprio traje espacial.

“Antigamente é que era bom” Dona Célia comentava com a vizinha.

“Pois é Célia. Esse governinho hein, mandou toda aquela gente de volta para a Terra. Aposto que eles nem tiveram que pagar a passagem. Ouvi dizer que até ganharam casas quando chegaram na Terra, um absurdo!” disse a vizinha.

“Ah minha amiga, mas eu é que não vou passar sufoco” Célia continuou “Já falei com meu filho. Ele conhece um promotor do tribunal espacial e vai arrumar um visto de trabalho extraordinário para mim”.

“Ficou maluca Célia, você vai trabalhar?”

“Maluca está você, por acaso eu falei que era para mim? Fiz contato com uma menina lá da Terra. Tadinha, ela tá sem emprego e eu disse que posso ajudar. Tenho um cantinho para ela lá em casa”.