Por volta dos anos dois mil e trinta os robôs assumiram quase todas as atividades repetitivas e entediantes executadas pelos operários de carne e osso. Empresas de tecnologia ganharam absurdas quantidades de dinheiro enquanto muita gente perdeu o emprego. Paciência, não dava para remar contra a maré. Esse era o preço de adotar novas tecnologias no mercado de trabalho.

O governo era um dos principais entusiastas desta mudança e promovia o slogan “Menos gente, mais máquinas” em todas as propagandas oficiais. As vantagens para o serviço público eram evidentes e as licitações dos robôs muito apetitosas.

A Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro continuava enrolada com vergonhosas estatísticas de violência urbana desde o final do século. Às vésperas da nova eleição, o governador do Estado decidiu implantar um projeto-piloto de pacificação utilizando andróides. Ele determinou a compra de quinze unidades especializadas em combate urbano importadas de Israel, um sucesso nas forças armadas de diversos países do ocidente. O modelo escolhido exibia extensa folha de serviço comprovada em combate, incluindo a captura e execução de terroristas famosos.

A população recebeu os Robocopes com muita expectativa. Políticos faziam discursos inflamados, enaltecendo a eficiência dos novos soldados e decretando o fim da violência no Estado. A mídia especializada apontava as vantagens de invadir a favela sem ter que arriscar a vida dos policiais militares. Fotos dos primeiros policiais robóticos patrulhando Copacabana estamparam todos os jornais de domingo.

Não demorou nem seis meses para o primeiro robô de combate ser encontrado na mãos de traficantes…

Complexo do Lins – Cidade do Rio de Janeiro – 03:15 – março de 2032

— Atividade aí Marcinho, os vermes tão subindo!

— Tô ligado, tô ligado.

O blindado da polícia militar ziguezagueava entre as vielas estreitas. O veículo subia o morro da Caveirinha desviando das barricadas que dificultavam o acesso à comunidade. A viatura parou próxima a um muro recheado de pichações e marcas de projéteis, atrás de um campo de futebol com traves improvisadas entre montanhas de lixo e entulho.

Cinco soldados do batalhão de operações especiais desembarcaram, montando mira com os fuzis e procurando abrigo em locais estratégicos. Um viralata escandaloso apareceu começou latir, denunciando a chegada dos intrusos. Foi abatido por um tiro de pistola automática com silenciador acoplado.

O Sargento Antunes comandava a incursão do grupo e avançou para o interior da comunidade. O destino era o Largo das Pedrinhas, que ficava na parte mais alta da favela, próximo aos limites com a Floresta da Tijuca. A equipe progredia em fila indiana, coordenados, realizando paradas estratégicas para evitar possíveis emboscadas.

Um robô carregador acompanhava os policiais pela retaguarda e trazia uma caixa volumosa amarrada sobre o dorso metálico. O formato do robô lembrava uma mesa de sinuca com seis pernas mecânicas articuladas e sua principal função era dar apoio logístico no combate. Ele entrava na favela transportando munição reserva e trazia corpos e drogas apreendidas. Ao final das operações ninguém na PM se preocupava em limpar os restos de sangue e secreções que emporcalhavam o equipamento, por isso ele ganhou o apelido de “Cheiroso”.

— Aê Picachu, os caras tão entrando nas Pedrinhas. Tô vendo eles daqui!

— Beleza, fica na guarda que eu tô descendo.

Os soldados invadiram o Largo das Pedrinhas e se entocaram em posições abrigadas. Eles aguardaram alguns minutos, até que na penumbra das vielas surgiu o vulto de um homem baixinho e gordo, que caminhava arrastando os chinelos.

Coé Antunes, pra que isso tudo mermão? — gritou.

O Sargento olhou para os comandados e sinalizou que estava tudo sob controle, ainda assim eles permaneceram com os fuzis engatilhados e prontos para ação. Antunes abaixou a arma e caminhou na direção do elemento grotesco que vestia casaco esportivo amarelo e ostentava um grosso cordão dourado em volta do pescoço. O gordinho tinha uma pistola na cintura e trazia um potente fuzil de assalto nas costas, muito mais moderno que o dos policiais.

— Você é que vai me dizer, o que tem pra gente hoje? — indagou Antunes.

— Calma Sargento. Tamo carregado. Eu não sou de vacilar com o sinhô. Trouxe a peça?

— Só vai ver a peça se mostrar nosso acerto primeiro.

Picachu encarou fixamente o Sargento Antunes. O bandido franziu a testa e esboçou um sorriso irônico. Tateou o bolso da bermuda e pegou um rádio de comunicação. Acionou o aparelho e deu a ordem sem tirar os olhos do policial:

— Desce aqui Marcinho, traz uma esmolinha pro pessoal.

Segundos depois um negro alto e magrelo, carregando uma mochila vermelha, saiu de outra viela e caminhou em direção ao grupo. Ele segurava um fuzil com as duas mãos e na cintura portava duas pistolas e quatro granadas. Armamento padrão dos soldados de Picachu. Ao se aproximar o rapaz jogou a mochila no chão, nos pés do sargento Antunes. O oficial manteve os olhos no bandido e ordenou que outro soldado verificasse o conteúdo.

— Caetano, verifica o pacote!

O soldado Caetano caminhou até a mochila, abriu o zíper e conferiu o conteúdo.

— Só tem uma parte aqui Sargento — anunciou.

Antunes assentiu com a cabeça e deu outro comando:

— Verônica, traz o Cheiroso.

A soldado Verônica trouxe o robô carregador para próximo do grupo. O Sargento abriu a caixa de madeira revelando o conteúdo da carga. Mesmo no escuro Picachu reconheceu imediatamente a silhueta do andróide de combate urbano.

— Ele tá limpo? — perguntou Picachu.

— Zeradinho — respondeu Antunes.

Picachu conferiu que a blindagem camuflada cinza escuro estava intacta e verificou também que as baterias de longa duração ainda eram as originais.

— A bomba hidráulica tem abafador?

— Sim. Ele faz pouco barulho quando se movimenta e ainda tem sistema de proteção contra ataque aéreo.

Picachu apalpou os canos das armas embutidas em cada antebraço do andróide e avaliou o calibre.

— Só tem essas duas?

— O que vem de série são essas duas escopetas e o lançador de granada em cima do ombro, mas ele pode manejar todo tipo de arma leve ou pesada. Coisa fina Picachu, última palavra em tecnologia militar — disse o sargento, acariciando o braço do robô.

— E a memória? Tá apagada?

— Aí é contigo. Quem manja desse negócio de sistema são vocês. Meu acerto era trazer a peça aqui pra cima. Vamo lá, cadê o resto do combinado? — perguntou o Sargento.

O traficante deu um soco na tampa da caixa e gritou:

Coé Antunes, tá nervosinho? Tá com pressa de ir embora? Então se adianta cumpadi, porque só tem arrêgo se a peça tiver funcionando!

Antunes e Verônica se entreolharam. Os dedos da soldado alisavam o gatilho da pistola automática que ela trazia no coldre, presa ao lado da perna. Bastaria um movimento sutil dos olhos do Sargento para Verônica sacar a arma e acertar os dois bandidos ali mesmo. Antunes sabia, entretanto, que para negociar com Picachu tinha que manter a cabeça fria.

—Tranquilo Verônica, tá tudo sob controle.

— Sargento, esse animal tá tirando onda com a nossa cara!

Picachu apontou o dedo na cara do Sargento e continuou:

— Olha Antunes, se tiver treta nesse robô vocês tão fudidos comigo. Marcinho, chama o Boneco do Posto aqui.

O magrelo se afastou alguns passos e acionou o rádio de comunicação. Poucos segundos depois um gigante de metal com mais de dois metros de altura pulou da laje de um barraco para o centro do Largo das Pedrinhas. O barulho do impacto no solo assustou os policiais, que ameaçaram abrir fogo, mas Antunes conseguiu conter a tropa.

— Calma pessoal, calma porra! — gritou o sargento.

O andróide grafitado com os símbolos do bando de Picachu varreu o local com suas câmeras e sensores térmicos, identificando e marcando todos os alvos em potencial. Os homens de Antunes não teriam nenhuma chance se fosse deflagrado o combate, e o Sargento sabia muito bem disso. O robô marginal tinha parte da blindagem no peito e na perna direita remendada com placas de grafeno reciclado, em uma das mão carregava uma metralhadora semi-automática com lançador de granada e na outra um fuzil de longo alcance.

Picachu se posicionou atrás do parceiro metálico, deu dois tapinhas na lataria do robô e disse:

— Bonecão, dá o confere no material.

O andróide se aproximou do outro robô ainda deitado na caixa de madeira. Inspecionou as partes externas da unidade irmã, checou os sistemas hidráulicos e as conexões de fibra ótica instaladas na nuca.

— É necessário ativar o sistema operacional para verificar a integridade do disco rígido e os programas carregados. Posso prosseguir? — perguntou o robô, com a voz metálica peculiar de máquina.

— Calma aê. Antes eu preciso aplicar a palavra.

Picachu retirou uma bíblia do bolso e um pequeno frasco que continha um líquido esverdeado. Pingou duas gotas do conteúdo oleoso na testa do robô, fazendo o sinal da cruz, deu dois passos para trás e começou a pregar.

— Em nome de Jesus! Faça com que esse novo irmão nos traga força e lute com coragem para derrotar nossos inimigos. Glória Deus! — e levantou as mão para o alto, acompanhado por Marcinho.

Verônica olhou para Antunes e sussurrou:

— Que diabos ele está fazendo?

— Ungindo o robô. Picachu é evangélico — respondeu Antunes

O traficante encerrou o culto, guardou o frasco no bolso e falou com Boneco do Posto:

— Vai, vai, pode acionar o camarada, mas se liga aí Boneco, vê se não dá mole — advertiu Picachu.

— Fique tranquilo. Ele vai iniciar em modo de segurança — respondeu o robô.

Boneco do Posto ativou o robô policial, que se levantou e pulou para fora da caixa num movimento brusco. Verônica acompanhava atentamente o movimento dos robôs, pronta para entrar em ação caso as circunstâncias piorassem. Pura tolice. As armas da PM nunca conseguiriam sequer arranhar os andróides.

A conexão wifi entre as unidades robóticas foi estabelecida e Boneco do Posto iniciou a verificação. Porrilhões de gigabytes eram transferidos entre as duas inteligências artificiais enquanto o robô marginal procurava por códigos e rotinas específicas no sistema eletrônico do companheiro policial. Quinze longos minutos se passaram até que Boneco do Posto sinalizou que o novo robô estava reconfigurado.

— Está pronto. Apaguei as diretrizes originais e a memória está reconfigurada.

Picachu soltou um sorrisinho quando viu o robô ativado e em estado de alerta.

— Muito bem, parece que tá tudo certo. Só vamos ter que raspar essas merdas que tatuaram em você — disse o traficante, apontando para o simbolo da PM pintado nos ombros do andróide. — E aí grande, como é que nós vamos te chamar?

O andróide policial zumbiu e bipou analisando os padrões fonéticos de Picachu, mas não encontrou nenhuma referência nos arquivos da memória. O robô permaneceu em silêncio.

— O cara é caladão em Antunes, o que vocês fizeram com ele? Normalmente a PM dá um corretivo nas pessoas para elas falarem e não o contrário! He! he! he!

O andróide permanecia imóvel, com pequenas luzes piscando no interior do capacete. Os bytes circulavam sem ajudar o robô compreender a situação em que se encontrava. Picachu e Antunes não podiam imaginar, mas aquela conversa caminhava para um final trágico.

— Tu é grandão hein. Olha aê Boneco! Ele parece maior que você. Será que ele é bom de mira? — Picachu sacou uma de suas pistolas e ofereceu ao robô. — Vamo lá, me mostra se tu sabe atirar.

A rotina de programação da inteligência artificial caminhava para o caos. Os milhares de bugs gerados pela reconfiguração do sistema operacional faziam o robô hesitar. Os alarmes internos começaram a disparar, acusando situação de perigo iminente. A relutância que o robô mostrava em pegar na arma irritou Picachu, que reclamou com Antunes:

— Porra Antunes, essa merda tá quebrada! Esse robô não serve — e deu um tapa nas mãos metálicas do robô policial.

— Deixa de estorinha Picachu, o material é de primeira, você é que não tá sabendo comandar — respondeu.

Picachu deu alguns passos para trás e puxou o fuzil que carregava nas costas.

— Calma aê gordo, o que é que tu tá fazendo — advertiu Marcinho, que lentamente se afastou do grupo.

— Vamos ver se esse filho da puta tem disposição mermo — completou Picachu

Quando ergueu o fuzil e puxou a alça para engatilhar a bala, o movimento do braço de Picachu deixou escapar do interior do casaco amarelo o medalhão que adornava o cordão do traficante. Pesando quase cem gramas, o símbolo da facção criminosa esculpido em ouro maciço reluziu. O andróide identificou o formato e comparou com o seu banco de dados interno. Por algum equívoco Boneco do Posto não alterou esses registros. Os microbytes que foram mantidos incorretamente na memória do soldado eram suficientes para ele tomar a decisão que tanto protelava.

Antes que Picachu conseguisse apontar para o robô, um tiro de escopeta atingiu o traficante no meio da testa. Ele foi jogado para trás e os pedaços de sua cabeça se espalharam pelo chão, como uma melancia atropelada. Outro disparo rasgou a caixa torácica de Marcinho, esfacelando de uma só vez o coração e os pulmões.

A reação de Boneco do Posto foi imediata, só que os alvos eram outros. Os tiros de metralhadora despedaçaram os crânios de Antunes e Verônica. Com o fuzil ele acertou o soldado Caetano, arrancando o braço esquerdo e parte da mandíbula do policial. Figueira e Ancelmo estavam um pouco recuados, mas também não conseguiram escapar. Os disparos atingiram os soldados várias vezes no peito e abdômen, causando hemorragias profusas e intensas, espalhando sangue e líquidos intestinais por toda parte. Em exatos quatro segundos o combate havia terminado para os humanos.

Sobraram apenas Boneco do Posto e o andróide policial, frente a frente.

Nenhum especialista em informática no mundo conseguiria traduzir as informações que aquelas duas máquinas compartilharam nos milissegundos em que estiveram apontando as armas um para o outro, sob ameaça de destruição mútua. O fato é que os cérebros eletrônicos movimentados à velocidade da luz fizeram a opção que era evidente para os dois. Não que a decisão fosse difícil, era muito óbvia por sinal, só que a clareza do pensamento lógico e racional dos robôs era uma vantagem que nem todos os humanos dispõem. Sem entender o motivo daquele confronto eles abaixaram as armas.

Enquanto o dia clareava, os dois lentamente subiram a favela, entraram pela mata e nunca mais foram vistos. Aquele era o único lugar do Rio de Janeiro em que poderiam se esconder dos perigosos seres humanos…

Cheiroso permaneceu no centro do Largo das Pedrinhas, sozinho, sem ninguém para lhe dar as ordens de recolher os corpos.

Jornal Última Hora

Rio de Janeiro – 15 de março de 2032

 

A polícia ainda procura identificar o grupo responsável pela morte dos policiais do batalhão de operações especiais ocorrida na madrugada desta segunda feira no morro da Caveirinha. Quatro soldados e o sargento Anderson Antunes foram mortos enquanto realizavam uma operação na região conhecida como Largo das Pedrinhas. No local também foram encontrados os corpos de dois traficantes, entre eles Júlio de Oliveira, o “Picachu”, um dos bandidos mais procurados do Rio de Janeiro.

 

O Secretário de Segurança declarou que apesar da morte dos policiais a política de enfrentamento continuará. Ele também anunciou que vai autorizar a compra de mais duzentas Unidades Autônomas de Patrulha Urbana para atuarem no combate ao tráfico de drogas.