Emival desembarcou do transportador Atlas depois de três horas e meia de viagem entre a Terra e a Lua. Vestia um terno barato e carregava uma pequena maleta com objetos pessoais. Ele foi um dos primeiros a sair da espaçonave e atravessou o finger com passos rápidos, desviando dos outros passageiros enquanto consultava um endereço anotado nas costas de um guardanapo.

O destino final da viagem era Vênus, mas ele decidiu fazer uma escala mais demorada na Lua. Tinha esperanças de finalmente encontrar a pessoa que tanto procurava.

O venusiano passou pela alfândega e atravessou o saguão principal do espaçoporto Neil Armstrong. O prédio era antigo e os viajantes se acotovelavam pelos coredores. Os passageiros que chegavam e partiam em direção aos diversos planetas e luas do sistema solar encaravam guichês lotados e filas enormes nos restaurantes. Alguns ignoravam o desconforto e paravam para fotos em frente às janelas do terraço panorâmico, que proporcionavam uma surpreendente visão de Seleucus. A cidade Lunar ficava distante alguns quilômetros e se destacava na planície pelas luzes coloridas dos gigantescos conjuntos habitacionais.

Emival tomou o elevador em direção ao terceiro andar do subsolo, onde ficava o hotel de trânsito oferecido pela companhia que operava o voo. Ele deixou a maleta no quarto e saiu vestindo a mesma roupa. Seria a última vez que passaria pela recepção do hotel.

O trajeto até Seleucus levava uns dez minutos e pela janela do metrô ele contemplava o horizonte cinzento e escuro da paisagem lunar. O trem se afastava rapidamente da região do espaçoporto, mas ainda era possível acompanhar o tráfego das espaçonaves decolando e aterrisando nas docas de lançamento. Veículos de transporte executivo e grandes cargueiros riscavam o céu lunar, deixando para trás os rastros azulados cuspidos dos motores de propulsão de plasma.

No centro da cidade ele fez uma conexão e pegou a linha que seguia em direção da Comunidade de Apoio 9. Emival se apertou no meio da multidão. Era difícil respirar no interior do vagão lotado e o calor fazia gotas de suor brotarem na testa. A maioria dos passageiros vestia macacões e uniformes de trabalho, exalando o cheiro azedo de corpos humanos que há muito tempo não tomavam banho.

Emival desembarcou na última estação da linha CA-9 e desceu pelas escadarias até alcançar a saída para a avenida principal. Percorreu o emaranhado de túneis escavados no subsolo rochoso lunar até alcançar uma viela escura e cheia de bares. As luzes coloridas nas portas dos estabelecimentos e a concentração de curiosos orbitando o local denunciava a principal mercadoria comercializada por ali: Sexo.

Ele avançou no meio a multidão, desviando de astronautas bêbados e recusando propostas de homens, mulheres e trans que se ofereciam pelo caminho. Parou em frente ao estabelecimento que exibia o nome “Celina’s Bar”, tirou do bolso o guardanapo e conferiu novamente o endereço.

Um homem com mais de dois metros de altura que estava encostado na porta viu Emival se aproximando e falou:

— Posso ajudar cavalheiro?

— Sim amigo, preciso de uma informação, vocês trabalham com clones? — perguntou Emival.

O homem esboçou uma risada.

— Cidadão, na Zona X você só vai achar clones. Agora, se quiser alguma coisa mais natural eu posso arranjar, mas custa caro — ele respondeu.

— Não precisa se incomodar, são clones mesmo o que eu procuro.

— Então entre e fique à vontade, mas vou logo avisando que aqui não é zoológico. Se quer só olhar é melhor ficar do lado de fora — e apontou para uma placa afixada ao lado da entrada:

“ Balde de latão 170$ – Proibido ocupar a mesa sem consumir”

O homem abriu a porta e Emival entrou. Na penumbra do salão ele teve dificuldades para encontrar uma mesa vazia. Os frequentadores debulhavam sem constrangimento os cardápios holográficos com imagens dos produtos oferecidos pela casa enquanto bebiam e petiscavam. Ele sentou em uma mesa no canto e fez sinal para o garçon. Sem rodeios foi direto ao que lhe interessava:

— Me traz o catálogo com os clones e uma cerveja.

— É pra já — o garçom respondeu.

A música alta incomodava, mas Emival se distraía observando a decoração do lugar. Fotos de modelos, atrizes e atores famosos estampavam as paredes, intercalados com pôsteres de produções cinematográficas.

Em segundos o garçom retornou, trazendo uma garrafa de cerveja e um cubo.

— Aqui está senhor, fique à vontade.

Quando o garçom se afastou Emival tocou a parte superior do cubo e uma imagem holográfica apareceu na sua frente, semelhante a um menu de restaurante, mostrando as categorias de produtos disponíveis listados um abaixo do outro:

“Andróides, Clones…”

Ele passou o dedo sob a palavra “Clones” e um novo menu flutuante surgiu:

“Masculino, Feminino, Trans, Outros…”

Assim que ele tocou na palavra “Feminino”, imagens de atrizes e modelos pipocaram na sua frente. Havia no canto esquerdo uma opção para busca mais detalhada, que Emival tocou e ouviu uma voz feminina suave lhe fazer a seguinte pergunta:

— Por favor, informe as palavras para busca.

— Clara Dupret — ele disse.

A imagem em três dimensões apareceu. O perfil de uma bela mulher de pele morena de olhos castanhos claros invadiu o espaço, ao mesmo tempo a voz ao fundo narrava o resumo da vida da modelo.

“Clara Dupret nasceu no ano de dois mil cento e sessenta e quatro. Foi modelo e atriz. Participou de diversas produções holográficas e teatrais, além de comerciais para marcas famosas de roupas. Uma de suas mais conhecidas atuações foi o holograma “As espiãs marcianas”, onde vivia uma das personagens principais ao lado da também atriz e modelo Susana Ramon. O clone de Clara Dupret está disponível para seu entretenimento essa noite. Consulte nossos funcionários para conhecer as promoções do combo Clara Dupret & Susana Ramon”.

A narração terminou e o valor do programa flutuou sobre a mesa. Emival sinalizou para o garçom apenas com o olhar, indicando que a escolha tinha sido feita.

O rapaz trouxe uma chave e mostrou o caminho até o andar superior do estabelecimento, onde ficavam as suítes reservadas. Nas escadas Emival esbarrou numa cópia da Gisele Bundchen, a requisitada modelo do século retrasado, acompanhada de um baixinho atarracado que fedia à cachaça. Mais à frente ele atravessou um corredor estreito e cruzou com um rapaz alto e musculoso que andava de mão dadas com o clone de um cantor famoso. Caminhou mais um pouco e por fim encontrou o quarto de número sete, o mesmo número que aparecia na chave.

Emival entrou e fechou a porta. O quarto simples cheirava a mofo. O mobiliário era composto por uma cama de casal, uma cadeira e no canto  um pequeno frigobar. Ele deixou o paletó e a gravata sobre a cadeira, tirou os sapatos e sentou-se na cama. As mãos suavam e tremiam.

Passaram-se menos de cinco minutos até que ele ouviu leves batidas na porta.

— Pode entrar — avisou.

A porta abriu e a clone de Clara Dupret entrou na suíte. A mulher vestia uma roupa de cor vinho colada ao corpo e sapatos de salto alto pretos. Ela se aproximou e o cumprimentou delicadamente.

— Boa noite. Meu nome é Clara Dupret, mas você pode me chamar só de Clara, ou do que quiser me chamar, fique à vontade — disse a mulher, exibindo um leve sorriso.

Ele encarou a clone. Os cabelos castanhos da mulher escorriam pela face, colados na testa molhada de suor. O corpo aperfeiçoado e esculpido pelos geneticistas mostrava certo desgaste e leve acúmulo de tecido adiposo. As coxas tinham marcas de celulite e das panturrilhas saltavam pequenas varizes azuladas. Ela caminhou pelo quarto enquanto tirava a roupa, ficando completamente nua, exibindo uma pequena mancha preta na perna esquerda, próxima da virilha.

Emival exibiu um largo sorriso.

— Viajei por todo o sistema solar, mas finalmente consegui te encontrar — falou.

A clone franziu a testa, ergueu as sobrancelhas e perguntou:

— Por acaso nós nos conhecemos? Você é cliente frequente da casa?

— Não só te conheço como fiquei apaixonado desde a primeira vez que estivemos juntos — ele respondeu — foi a três anos atrás, em Venera. Você se exibia em um clube e eu paguei para sairmos juntos.

Ele olhava fixamente para a clone enquanto falava.

— Sempre fui fã da Clara Dupret, mas você, você me proporcionou algo diferente, muito mais intenso. Nunca consegui te esquecer — continuou

A mulher riu e sentou-se na cama ao lado de Emival.

— Querido, deixe-me te explicar algumas coisas. Se estivemos juntos alguma vez na vida eu não me lembro, clones não tem boa memória. Outro ponto, foram produzidas mais de um milhão de cópias da minha série, então, você pode ter se encontrado com qualquer uma das minhas “irmãs” que estão soltas pelo sistema solar.

Emival se levantou e segurou a clone pelos braços.

— Não! não é verdade. Tenho certeza que você é diferente das outras. Nunca mais te esqueci. Estive com outras do mesmo modelo que você, mas foi totalmente diferente, puramente vazio, entediante. Você é original e única. Desde aquele dia tenho procurado por você — Ele falou, enquanto acariciava as mãos da mulher.

A clone se levantou e caminhou até o refrigerador. Retirou um frasco de bebida avermelhada, abriu e deu um longo gole. Emival se ajoelhou e agarrou a mulher pelos tornozelos.

—Vamos, venha comigo. Vou te levar para Vênus e ficaremos juntos para o resto de nossas vidas — ele disse.

A clone suspirou e deu mais uma golada na bebida. Pegou Emival pelas mãos e o colocou sentado na cama novamente.

— Não seja ridículo. Você deve ser um homem inteligente. Se apaixonar por clones é coisa de gente pervertida. O que vão pensar de você? Eu te sugiro novas experiências, já tentou alguma vez procurar uma mulher normal, ou um trans?

—Eu não ligo para isso. Não me interessa o que as pessoas dirão — ele respondeu, colocando a cabeça entre os joelhos.

—Além do mais eu não sou livre. Se quiser negociar o meu preço tem que convencer primeiro a Dona Celina. Eu duvido que ela aceite. Você não é o primeiro que chega aqui com essa conversa mole. Ela já recebeu ofertas muito generosas, mas nunca cogitou a hipótese de me vender.

Emival ergueu a cabeça e gritou.

—Ela não vai recusar minha oferta. Se achar pouco posso dobrar, triplicar, pago o que for preciso para ter você ao meu lado! — ele respondeu, com os lábios tremendo  e os olhos inundados de lágrimas.

— Acho muito difícil convencer a velha a se livrar de mim — ela disse, soltando uma gargalhada debochada.

— Porque? Ela é uma comerciante não é mesmo, eu também sou. Podemos chegar a um acordo.

—O problema não é somente o dinheiro meu querido. Ela também diz que eu sou diferente das outras, que sou “original” e que ela não consegue viver sem mim. Essas bobagens que você falou até agora!

Ao ouvir aquela frase Emival foi tomado por náuseas e calafrios. Permaneceu admirando a clone por alguns segundos e se levantou. Era difícil digerir a efervescência de emoções que afligia seu pensamento. Depois de tanto andar e procurar por aquela mulher ele se sentia traído pelo destino. Encontrou o que queria, mas todos seus sonhos foram ridicularizados por quem ele mais adorava. Estava confuso, muito confuso.

A clone se distraia com o frasco de bebida vazio nas mãos e não percebeu quando ele andou até a cadeira e pegou a gravata.

— Vocês humanos são muito sentimentais. Tenho certeza que um dia os clones vão dominar o sistema solar, quem sabe até a galáxia inteira — ela disse.

Foi a última frase que a clone pronunciou…

A multidão de curiosos se aglomeravam na porta do Celina’s Bar enquanto a repórter entrevistava o segurança da casa noturna.

— Ele chegou subiu logo para o quarto. Não bebeu nem comeu nada. A maioria de nós fica assim mesmo, principalmente quando é a primeira vez com clones. Você sabe como é, aquela atriz ou modelo famosa assim na sua frente, é difícil segurar a emoção — dizia o segurança.

— Eu posso imaginar — a repórter retrucou.

— A Dona Celina me mandou entrar no quarto para ver o que tinha acontecido quando os outros clientes começaram a reclamar do cheiro.

— O que você encontrou lá dentro?

— O sujeito estava nu, deitado na cama, olhando pro teto e com a boca espumando sangue. Também vi a clone no canto do quarto estrangulada com uma gravata. Nua, toda roxa e com a língua pra fora. O quarto fedia a carniça. Engraçado, eu acho que a carne de clone apodrece mais rápido que a nossa.

— O homem estava vivo? a repórter perguntou.

— Não sei. Quando vi que a clone tinha parado de funcionar comuniquei imediatamente a empresa. Eles mandaram que eu saísse do quarto sem mexer em nada.

— Empresa, que empresa?

— A Xenotech, fabricante do clone. Toda vez que dá um problema a gente tem que chamar a assistência técnica.

— E ninguém chamou a polícia?

O grandalhão deu uma risadinha com o canto da boca.

— Amiga, a polícia só entra aqui nas horas de folga ou pra buscar um arrego.

— Que nojento — disse a repórter, e continuou — me diga, a Dona Celina é a proprietária do estabelecimento?

— Desse aqui e de mais cinco pontos da Zona X. Ela ficou muito abalada com a notícia. Dona Celina gostava muito da Clara e tratava a menina como se fosse gente. Ela sempre dizia que essa clone era única, engraçado não? Eu acho que elas tinham algum rolo, mas não coloca isso na entrevista. Pode complicar minha vida — ele pediu.

— É no mínimo curioso. Dizem que os clones são todos iguais. Será que o rapaz se irritou porque viu alguma diferença?

— Pode ser, vai entender o que passa na cabeça desses pervertidos.

Enquanto o segurança falava, dois homens vestindo roupas e toucas brancas saíram do Celina’s Bar. Logo atrás deles vinha um robô carregando um saco plástico também branco, estampado com símbolos vermelhos de risco biológico.

— Olha lá os caras da Xenotech — avisou o segurança

— Vou falar com eles, talvez consiga alguma informação, obrigado! — disse a repórter, e correu em direção aos homens de branco

Ao perceber que a ela se aproximavam, um dos homens tirou a touca branca e arrumou os cabelos.

— Amanda Ribeiro, do Meia Hora na Lua — ela se apresentou.

— Meia Hora na Lua? Esse eu nunca ouvi falar — respondeu o homem, cumprimentando a repórter.

— O senhor pode me dizer o que aconteceu?

— Olha menina, não aconteceu nada demais. Coloca aí no seu jornal que não foi identificado nenhum problema com a clone, por isso não há motivos para os clientes ficarem preocupados com a utilização do modelo F2000-CD.

— Tem um homem morto lá dentro, isso não é grave? ela perguntou, aproximando a câmera do rosto do entrevistado.

— Não sei, não sou médico. Alguém deveria chamar os bombeiros porque nós não temos nada com isso, nosso problema é com a clone. O cara deu um baita prejuízo para a dona do estabelecimento. A clone ficou inutilizada e a garantia não cobre esses casos.

— Algumas pessoas disseram que essa clone era “diferente”. O senhor confirma essa informação? Essa diferença pode ter desencadeado algum comportamento inesperado? — perguntou, se aproximando do robô que colocava o saco plástico em um furgão pintado com as cores da Xenotech.

— Impossível. Todos os clones são idênticos e foram testados antes de saírem da fábrica — respondeu, elevando a voz.

A repórter puxou o zíper e abriu o saco plástico. Posicionou a máquina fotográfica para tirar uma foto da clone, mas o homem colocou uma das mãos sobre a lente.

— Alto lá senhorita! Ela é propriedade privada mesmo depois de inutilizada. Pra tirar foto tem que pedir autorização ao proprietário — Gritou.

O homem afastou Amanda com um empurrão. Ele entrou no veículo e sentou no banco do motorista. O robô terminou de colocar o corpo no furgão e os funcionários da Xenotech se prepararam para sair. Antes de dar a partida o homem perguntou:

— A matéria vai sair hoje ainda? Passa o link pra gente, anota aí meu telefone! — e gritou uma sequência de números.

Amanda fingiu anotar os números no smartphone enquanto o furgão descia a rua, buzinando para espantar os curiosos. Ela sentou na calçada e começou a ouvir os trechos das entrevistas, preparando o material para a transmissão. O segurança grandalhão que ainda estava por ali se aproximou da repórter.

— Conseguiu mais alguma informação? ele perguntou.

— Nada — respondeu — e o pior é que não consegui nem a foto do corpo.

— Isso é fácil de resolver — ele disse.

O homem tirou um cubo do bolso, apertou alguns botões na lateral do objeto e entregou para Amanda.

— Toma, dá uma olhada. De repente você aproveita alguma imagem.

O cubo emitiu um facho de luz para o alto e exibiu a imagem da clone usando um minúsculo biquíni e com os seios à mostra.

— Hum, bonita, era uma clone da Clara Dupret — disse a repórter, rodando o cubo para observar a modelo em diferentes posições — Ela foi muito famosa.

Amanda apertou um botão na lateral do cubo, que ampliava partes da imagem possibilitando ver melhor os detalhes.

— Engraçado, tem algo estranho aqui, tá vendo? — e apontou para o holograma.

— O que?

— Essa marquinha na perna esquerda, perto da virilha.

— Sim. Estou vendo.

Amanda consultou na internet do smartphone o nome “Clara Dupret”. Várias fotos da atriz apareceram na tela.

— Muito estranho. A atriz original não tinha essa mancha…

 

Fim