— Parabéns Sr. Laércio, o senhor foi selecionado pela Venuscrop!

Laércio cumprimentou a gerente de recursos humanos com um aperto de mão. A mulher sentada à sua frente vestia um macacão vermelho e na gola usava um bottom no formato de um abacaxi azulado. Sobre a escrivaninha folders e panfletos de propaganda se misturavam aos relatórios de produção e catálogos de produtos. No fundo da sala havia um quadro com a foto holográfica de um velho barbudo, andando à cavalo, acompanhado de três cães enormes e peludos.

— Que bom! Faz muito tempo que eu estou procurando essa oportunidade. Sabe como é, as coisas hoje em dia estão difíceis — ele disse.

A mulher colocou sobre a mesa um maço de papéis coloridos.

— Deixe me ver, em que área o senhor disse que tem experiência?

— Soldagem, tenho curso técnico de soldador e habilitação para usar trajes espaciais de categoria B-7. Trabalhei na Lua e Marte, se quiser posso mostrar as referências.

— Não é necessário — respondeu, enquanto mexia nos papéis — o senhor sabe ler?

— Sim, quer dizer, mais ou menos. É que ultimamente não tenho tido tempo de praticar — ele disse, coçando a cabeça.

— Claro, eu entendo, a vida de hoje corrida demais para todos nós — a mulher respondeu, exibindo um sorriso — Fique tranquilo, o senhor não vai ter dificuldades em compreender nossas condições — e virou os formulários coloridos na direção de Laércio.

Laércio pegou o primeiro formulário, aproximou dos olhos e leu com dificuldade o título em vermelho “Dos deveres do empregado”. Ele folheou as páginas até o final, onde identificou o seu nome próximo ao campo escrito “assinatura”, ao lado de uma marcação circular que dizia “comprovação genética”. Ele franziu a testa e olhou para a gerente.

— O que é essa cum…comprub…”comprovação genética”? — perguntou.

— Pura formalidade, aqui pingamos gotas de sua saliva para garantir que o documento foi realmente assinado pelo senhor. Queremos evitar qualquer mal entendido — a mulher falava enquanto ordenava os papéis sobre a mesa — podemos assinar?

— É que eu preciso de mais tempo para ler, as letrinhas são tão miúdas…

— Não se preocupe, se tiver qualquer dúvida eu posso esclarecer para o senhor — ela respondeu, olhando para a tela do smartphone que retirou da bolsa.

O soldador virava as páginas e examinava as centenas de linhas recheadas de frases e palavras que não conseguia compreender. Obrigações, metas, deveres, códigos de conduta, enfim, tudo registrado de forma complexa nas páginas do contrato.

— Qual é a jornada? — ele perguntou.

Sem tirar os olhos da tela do aparelho ela respondeu:

— O contrato é de dois anos terrestres, em turnos ininterruptos de dezesseis horas de trabalho com intervalo de quatro horas para as refeições e repouso.

Laércio olhou para o teto, enquanto calculava com os dedos quanto tempo teria de folga.

— Puxado não? — ele disse.

— O senhor acha? Pois fique sabendo que o dia em Vênus é equivalente a 243 dias na Terra, então ao final do contrato o senhor terá trabalhado uns três dias venusianos.

— Vendo por esse lado parece justo — falou.

— A economia de Vênus cresce assustadoramente. É impossível adotar as jornadas de trabalho indolentes praticadas aqui na Terra!

Laércio concordou, assentindo com a cabeça enquanto a mulher se distraía trocando a cor das unhas pelo aplicativo do smartphone.

— E quanto eu vou ganhar? — ele perguntou.

A mulher arregalou os olhos e largou o smartphone sobre a mesa. Encarou Laércio por alguns segundos e soltou uma gargalhada.

— O senhor é muito engraçado! — exclamou.

As bochechas de Laércio ficaram rosadas e ele fingiu uma risada, acompanhando a mulher, que ria tanto ao ponto de lacrimejar. Quando os dois se recuperaram, Laércio insistiu na pergunta.

— Então, quanto eu vou ganhar?

A gerente ficou séria e se levantou. Caminhou até a entrada da sala e verificou se havia alguém nos corredores, fechou a porta e virou-se para Laércio.

— Escute aqui, você é muito espertinho, mas não vou cair na sua conversa mole. Por favor não insista!

Laércio baixou a cabeça.

— Tudo bem, eu não queria ofender — ele disse.

— Olha, que decepção. Eu nunca imaginei que você tivesse esse pensamento egoísta. Nossa empresa gasta uma fortuna para selecionar os funcionários e proporcionar as melhores condições de trabalho. Você nem assinou o contrato e já quer saber quanto vai ganhar, essa é boa! Eu posso ser até demitida se alguém estiver nos escutando — ela falou, apontando o dedo na cara de Laércio.

— Me desculpe, eu não tive a intenção. Eu vou assinar o contrato imediatamente.

A mulher ofereceu uma caneta e um cotonete para Laércio. Ele assinou os formulários em cinco vias e esfregou o cotonete na parte interna da bochecha. A mulher recolheu os papéis, e esfregou o cotonete embebido em saliva no campo “comprovação genética” de cada formulário.

— Maravilha Sr. Laércio, bem vindo à família Venuscrop! O senhor agora é um privilegiado por trabalhar conosco. Quando chegar em Vênus terá direito a descontos nas nossas farmácias e nossos supermercados. Você já esteve em Vênus?

— Não — ele disse, cabisbaixo.

— Pois então se prepare, em breve o senhor vai conhecer o celeiro agrícola do sistema solar! — a mulher gritou, colocando sobre a mesa um livreto promocional da Venuscrop.

Laércio examinou o material. A foto da capa mostrava um grupo de cinco astronautas posando na frente de uma pilha de abacaxis azulados. As outras páginas traziam ilustrações sobre as fazendas venusianas e os alojamentos de trabalhadores. A mulher falava sem parar sobre as vantagens de se tornar um membro da Venuscrop e Laércio teve que interrompê-la.

— Eu queria saber quanto vou ganhar.

A mulher mordeu os lábios.

— Mil desculpas Sr. Laércio, eu deveria ter falado logo após a assinatura do contrato. Espere um momento que vou consultar o valor do vencimento para a sua categoria.

A gerente digitou alguns códigos no computador à sua frente e em segundos o número apareceu na tela. Ela virou o monitor na direção de Laércio e mostrou o valor do salário.

Ele fez uma careta e comentou:

— Puxa, pensei que fosse um pouquinho mais.

— Senhor Laércio, as empresas hoje em dia estão com muitas dificuldades de contratar pessoas. Os custos são altíssimos e a legislação muito severa. Eu não jogaria fora esta oportunidade.

— A senhora trabalha aqui há quanto tempo?

— Assinei meu contrato por dez anos e trabalho há seis neste setor. A cada ano meu salário diminui, mas não tenho nada a reclamar, muito pelo contrário, todos os dias agradeço a ele — e apontou para o velho barbudo na foto holográfica.

— Quem é ele? Laércio perguntou

— Ele é o Chanceler Leopoldo V, bisneto do fundador da Venuscrop.

— Que diabos é um Chanceler?

— Não faço ideia, mas todo mundo chama ele assim. O Chanceler é um intelectual respeitado, um nobre. Foi deputado federal duas vezes aqui na Terra e agora é deputado constituinte no parlamento espacial dos planetas rochosos. É a terceira geração no comando da empresa, gerando empregos e fazendo nossas vidas felizes.

Ele encarou o quadro por alguns instantes e retomou a conversa.

— Mas é muito pouco. A senhora me desculpe, fica difícil aceitar esse valor.

A mulher se voltou novamente para o smartphone, olhando fixamente para a tela do aparelho, agora acessando outro aplicativo que servia para alterar as cores das lentes de contato.

— Tudo bem, fique à vontade. Não podemos te obrigar a permanecer na Venuscrop. Tomara que o senhor tenha sorte daqui a seis meses — ela falou.

— Seis meses?

— Sim. É o período de aviso prévio que o senhor tem que cumprir. Lembre-se do contrato que acabou de assinar.

— Mas que diabos, isso não é justo, eu exijo meus direitos! — Laércio bateu na mesa e se levantou.

A mulher permaneceu  ocupada com o aplicativo do smartphone .

— Vamos parar com o chilique — ela continuou, mantendo os olhos na tela do aparelho — e não tente fugir, podemos rastrear seu DNA por todo o sistema solar.

Laércio olhou através da janela do escritório e viu dois seguranças circulando pelo corredor. A mulher continuou falando.

— Olha, eu entendo a situação. O senhor está ansioso com o novo trabalho, é normal. Não precisa ficar assim senhor Laércio. Olhe para o lado. não desperdice a oportunidade. Na Terra não existem mais empregos. As empresas estão fazendo sacrifícios imensos para contratar humanos. O lucro continua crescendo, mas nunca se sabe até quando o Chanceler vai manter essa política. Olha a dificuldade que a empresa está passando. É muita pressão sobre nosso líder.

Laércio se sentou e olhou novamente para o homem na foto holográfica.

— Puxa vida. Ele está passando necessidade também?

— É claro — a mulher respondeu — a empresa toda está sofrendo com a crise.

A mulher baixou os olhos. Laércio se sentou novamente.

— E o trabalho? — ele perguntou.

— Não entendi o quer dizer?

— O emprego, a atividade, o que eu vou fazer?

— Homem, como você é ansioso! Mal chegou na companhia e já quer saber um monte de detalhes. Você é funcionário da Venuscrop. Tem que fazer o que mandarem — ela respondeu.

— Desculpe, não quis parecer intrometido — respondeu, baixando os ombros e se curvando na cadeira.

A mulher pegou as mãos de Laércio.

— Tudo bem, não fique assim. Eu gostei de você. Vou pedir ao pessoal encarregado da colheita para te passar algumas informações.

— Colheita?

— Sim, colheita. A Venuscrop está expandindo as plantações em Vênus e precisa de gente para trabalhar na colheita.

— Mas eu sou um soldador, não entendo nada de agricultura.

Ela pegou um dos catálogos de produtos que estavam jogados sobre a mesa e abriu em uma página com fotos de diversos objetos coloridos.

— Dê uma olhada nisso. São frutas frescas geneticamente modificadas. Produzidas pela nossa empresa nas fazendas flutuantes de Vênus. Exportamos para todo o sistema solar. Os robôs plantam, borrifam pesticidas e cuidam de todo o ciclo de vida dos vegetais. Precisamos de seres humanos apenas para a colheita.

— Porque os robôs não colhem também? — perguntou.

— Hã Hã…não podemos permitir isso. Não seria “humanamente sustentável”.

— Humanamente sustentável?

— Sim, é necessário que os humanos participem de pelo menos dez por cento do processo de produção para garantirmos o selo PHS, “Produto Humanamente Sustentável”. Ajuda impulsionar as vendas.

— Mas eu não entendo nada de plantas…

— Não vamos começar com essa estória de novo, não é. O senhor já sabe do privilégio que é trabalhar conosco. Aproveite para desenvolver novas habilidades, quem sabe daqui algum tempo o senhor é promovido para trabalhar em outro local.

— Existe essa possibilidade?

— Claro, a empresa estuda abrir fronteiras agrícolas em Titã. O salário é um pouquinho menor porque os custos de manter os empregados lá são muito maiores, o senhor sabe né?

A mulher guardou os formulários na gaveta da escrivaninha e olhou para Laércio.

— Ok, estamos acertados. O senhor parte em dois dias. Esteja no espaçoporto de Havana às dez horas de sexta feira.

— Combinado — ele respondeu, mantendo a cabeça baixa e olhando para o chão.

— A passagem até Havana será descontada do seu primeiro pagamento. O vôo até Vênus também.

— Entendi — e suspirou.

A mulher apertou a mão do soldador e se despediu com uma piscadela de olhos. Enquanto ele se dirigia para a porta ela fez uma última pergunta:

— Só mais uma coisa, o senhor vota aqui na Terra?

Laércio encarou a mulher e respondeu:

— Sim, aqui em São Paulo.

— Não tem interesse em mudar o título para Vênus? O filho do Chanceler vai tentar a vaga do Senado Venusiano. Todos os funcionários Venuscrop devem ajudar, não acha?