A viatura de polícia militar atravessou sorrateiramente o terreno baldio, esmagando o capinzal e desviando de montanhas de lixo. O motorista exibia profundo conhecimento do terreno, porque conduzia o veículo na escuridão mesmo com os faróis desligados. Ele manobrou a viatura em frente ao edifício abandonado e estacionou de ré próximo à entrada principal.

Parecia que o local estava abandonado há muitos anos. Os três andares estavam apoiados em uma estrutura de alvenaria deteriorada e cambaleante, com paredes sem reboco e janelas quebradas. No térreo, o mato invadia a construção pelos buracos nas paredes e se misturava ao entulho. Não havia muros ou cercas delimitando o local, apenas um portão enferrujado que não impedia a entrada de estranhos.

O 3º Sargento Danilo desceu da viatura seguido pelo parceiro e motorista Cabo Mauro. O Cabo abriu o porta-malas e a dupla permaneceu alguns segundos observando o conteúdo do interior. Na pressa, o corpo foi jogado de qualquer jeito no bagageiro e após sacolejar intensamente ao longo do caminho, era difícil descrever a posição em que o defunto se encontrava.

Magrelo e pardo, ele vestia apenas uma bermuda jeans empapuçada de sangue e tinha os dois braços arqueados para trás, com o esquerdo flexionado muito além da posição normal e visivelmente fraturado. As pernas foram amarradas e o pescoço exibia vários cortes e manchas arroxeadas.

Danilo e Mauro suspenderam o corpo de um lado pelos tornozelos e do outro pelas axilas, dessa forma conseguiram retirá-lo do bagageiro sem muita dificuldade. O cadáver frio e ainda sem rigidez estava infestado de varejeiras, extasiadas com o cheiro ferruginoso de sangue coagulado.

Danilo chutou o portão e eles entraram no prédio. O pôr do sol avançava rápido e a visibilidade no interior do edifício era péssima. Mauro iluminava o caminho com uma lanterna e os dois arrastaram o corpo pela escada que dava acesso ao primeiro andar. Eles encontraram várias salinhas abandonadas e entraram na primeira à esquerda, deixando o corpo encostado na parede, embaixo de uma janela quebrada.

Danilo tirou o celular do bolso e teclou um número. Ouviu o som de chamada por três vezes até que a voz do outro lado da linha respondeu.

“E aí Danilo, tudo certo? Pegou o cara?”. Perguntou o interlocutor, falando bem alto, possibilitando que Mauro acompanhasse o diálogo.

“Fala Santana! Olha só meu chegado, com um pobleminha aqui!”

“Qual foi Danilo, o que é que tá pegando?”

“Bom… Não sei nem como que eu vou falar pra você… É que o cara, o cara, não aguentou não…”

“Como é parceiro? Que porra é essa Danilo, que merda é essa que você tá me dizendo?” Esbravejou o Tenente Santana.

“Pois é, acho que a gente pegou pesado com ele…”

“Caralho Danilo! Vocês passaram o cara? Puta que pariu seu filho da puta! E agora, como é que eu vou desenrolar a parada aqui?”

“Porra foi mal. A gente tava fazendo tudo certinho, mas só que o cara tava muito agitado, o Mauro amarrou ele e falei pra apertar o nó só um pouco, mas aí…”

O Tenente Santana interrompeu a fala de Danilo.

“Tá, tá bom, tá bom caralho! Vocês já fizeram a merda mesmo agora preciso que me ajudem a consertar. Presta atenção, tu vai fazer o seguinte…”

Danilo ouviu atento as ordens do Tenente. Não havia tempo a perder porque aquele imprevisto exigia alterações drásticas nos planos. Ele ainda tentou se desculpar mais uma vez, mas foi repreendido.

“Pô foi mal mesmo, foi mal mesmo…”

“Tu só me fode mesmo. O pior é que eu vou ter que falar pro Capitão. Ele vai ficar puto! Bora, corre pra cá!”. E desligou o telefone.

Danilo finalizou a chamada e transmitiu as novas diretrizes da operação para o parceiro. Mauro recebeu ordens para ficar no galpão tomando conta do corpo, enquanto Danilo encontraria o resto dos policiais nas proximidades do Morro do Morcego.

“Tá de sacanagem que tu vai me deixar aqui tomando conta desse presunto! Vamos largar esse filho da puta aqui mesmo e se mandar”. Disse o cabo. Apontando a lanterna diretamente para a face de Danilo.

“Abaixa essa porra caralho! me cegando com essa luz!”. Gritou. “Não tem jeito. O Santana falou que a gente pode precisar do corpo depois. Tem mais outra coisa, vou ter que levar o fuzil”

“Tu vai me deixar desarmado?”

“Vai se foder Mauro! Você com um revolver e o cara aí na tua frente morto. com medo de que?”.

Contrariado, Mauro entregou o único fuzil que eles carregavam para o Sargento e se acomodou no cantinho da sala, do lado oposto ao morto.

“Sei lá Danilo. Essas quebradas por aqui são perigosas…”

Danilo retirou outra lanterna do bolso, ligou a luz e desceu as escadas em direção ao térreo. Mauro ainda ouviu os passos do amigo atravessando o capinzal e o ruído do escapamento perfurado da viatura se afastando.

Uma hora havia se passado e o silêncio noturno só era interrompido pelo latido de cachorros que perambulavam do lado de fora do prédio. Sem ter o que fazer e de saco cheio por ter sido excluído da operação, Mauro resolveu inspecionar com mais critério o cômodo que lhe servia de abrigo. Com ajuda da lanterna vasculhou o local e encontrou um velho colchão rasgado no centro da sala, com vários pedaços de isopor espalhados em volta. Também pode notar os resquícios de uma fogueira e algumas latas com restos de solvente. A julgar pelo cheiro do ambiente, uma mistura de suor, merda e asfalto, suspeitou que moradores de rua habitavam o local regularmente.

Observou que um fio de energia entrava pela porta da salinha e subia pela parede. Acompanhou o trajeto e encontrou uma lâmpada pendurada próxima ao teto, escorada num varal improvisado. Mauro girou a lâmpada e gambiarra forneceu uma luminosidade débil, mas ajudou confirmar a imundície que era o aposento. Ele sentiu um calafrio ao ver duas baratas cascudas correrem para debaixo do colchão. Morria de medo daqueles insetos, mas dizia para todo mundo que era apenas nojo.

Mais duas horas se passaram e Danilo não retornou, muito menos enviou qualquer mensagem. O sequestro do marginal renderia um bom dinheiro. O gerente do Morcego tinha acertado pagar uns cem mil pelo resgate e grana seria repartida entre o grupo. Metade para o Capitão e o resto entre os subalternos. Com a morte acidental do meliante ele estava apreensivo e suspeitava que as negociações não acabariam bem.

Outro acontecimento o deixaria ainda mais inquieto ao longo daquela noite.

Mauro encarou o defunto e sentiu algo desagradável. Ele estava habituado a corpos, pedaços de corpos, sangue e os demais elementos mórbidos relacionados à morte, mas a expressão daquele cadáver estranhamente o incomodava. Aproximou-se e por um instante observou o rosto, o pescoço caído e a boca semiaberta com parte da língua exposta. O problema ficou evidente. Os olhos! O morto estava com os dois olhos abertos que miravam fixamente o policial. Aquilo o perturbava de tal maneira que imediatamente ele fechou os olhos da vítima com as pontas dos dedos.

Mauro aproveitou para revistar o infeliz e virou o corpo de costas para checar os bolsos. Naquela posição ele percebeu que o homem exibia um imponente São Jorge tatuado nas costas. O santo encontrava-se na posição clássica, montado sobre o cavalo e cravando a lança de combate na boca do dragão. Ao redor, decorando a cena, o tatuador incluiu vários escudos de um popular time de futebol, provavelmente por exigência do cliente, já que o desenho ficou horroroso. Sem encontrar nada de valor, ele recolocou o corpo na posição anterior, encostado na parede com os braços caídos.

A atenção de Mauro foi desviada por um ruído que veio da sala ao lado. Instintivamente ele colocou a mão sobre o coldre e sacou o revólver. Agachado, esquivou-se pelo corredor e caminhou até a porta do outro cômodo com a arma apontada para frente. Na porta da outra sala ele acendeu a lanterna e vasculhou a escuridão, encontrando entulho, móveis quebrados, restos de comida e mais baratas.

“Puta que pariu! “. Disse em voz alta.

Mauro examinou o local e para sua surpresa havia uma grande coruja marrom entocada em um buraco na parede, próximo ao teto. A ave emitiu um pio agudo, sem se mover, ignorando a presença do policial. Sem identificar nenhum perigo, ele retornou à salinha onde estava o defunto.

Ao voltar, ele sentiu calafrios e as pernas bambearam quando notou que os olhos do morto continuavam abertos.

Ele se aproximou do cadáver e num gesto rápido fechou novamente os olhos do morto. Seus dedos ficaram impregnados de uma secreção pegajosa e malcheirosa, que ele tentava limpar esfregando as mãos nas laterais das calças.

A aflição aumentou à medida que a noite avançava. O telefone celular vibro. Ele tirou do bolso e conferiu o número na tela. Era uma chamada conhecida, mas hesitou em atender a ligação até ser vencido pela insistência do aparelho.

“Porra, já falei que não é pra me ligar quando estou de serviço”. Reclamou.

“Só queria saber se você vai vir aqui em casa hoje”. Respondeu a suave voz feminina.

“Hoje não vai dar querida, mas assim que eu tiver uma folguinha em passo aí”

“Já sei! Você só quer saber de dar atenção para aquela vagabunda da sua mulher”

“Não é nada disso…é que hoje eu enrolado”. Disse.

Enquanto falava virou-se, olhando de relance para o cadáver, e o que viu o deixou trêmulo e com o coração pulsando próximo da garganta. Mauro terminou a ligação abruptamente, sem desculpas e remorso.

“Querida, tenho que desligar. Tchau!”

“Mas…”

Desligou o telefone e guardou no bolso lateral calça. A cena aterrorizante se repetia mais uma vez. O morto mantinha insistentemente os olhos abertos, espreitando a conversa entre ele e a amante. Com ajuda da lanterna, Mauro localizou uma ripa de madeira e deu umas cutucadas no defunto para assegurar que ele estava de fato “morto”.

Seu coração batia forte e sentia o suor gelado escorrendo pela face. O cadáver diante dele o afrontava com a boca e olhos abertos, exibindo dentes brancos que refletiam a luz da lanterna.

Confuso e petrificado, Mauro emitiu um berro de pavor e começou a espancar o corpo apodrecido com o pedaço de madeira. Bateu com tanta força que fragmentos da carne começaram a se separar e se transformaram em uma massa fétida e amorfa. Espancou o defunto com tanta energia e vigor, que farpas da madeira rasgaram sua pele e as mãos começaram sangrar.

Era hora de acabar com aquele corpo de uma vez por todas.

“Foda-se a ordem do sargento, fodam-se também o tenente e o capitão”. Pensou.

Vasculhando os escombros da sala e do corredor ele encontrou as latas com restos de solventes. Furou as tampas e espalhou o conteúdo sobre o defunto e o colchão velho. Todo o local ficou encharcado, exalando o cheiro ardido do combustível.

Enquanto procurava uma maneira de acender o fogo, ouviu algo se arrastando com dificuldade pela escada vindo em sua direção. Sem vacilar, sacou a arma e ficou agachado na porta da salinha, observando uma luz azulada e tênue, que surgia do andar térreo e produzia sombras fantasmagóricas nas paredes. O barulho se aproximava cada vez mais e do interior daquela escuridão ele viu surgiu um vulto cambaleante, que se deslocava apoiado nas paredes e carregava um pequeno pedaço de madeira em brasa.

Mauro disparou três vezes na direção do pobre homem.

Enrolado num velho cobertor, o mendigo caiu pelas escadas sem ao menos entender o motivo de sua morte.

O policial ignorou o indigente e olhou novamente para o corpo do marginal. Parte do couro cabeludo havia descolado da caixa craniana após as pauladas e grande quantidade de secreção amarelada escapava pelos orifícios da face. Os olhos tinham as órbitas afundadas e enegrecidas, e quase não podiam ser identificados no meio da gosma em que o rosto tinha se transformado.

Mauro gelou quando percebeu que a coruja marrom tinha entrado na sala e estava pousada na cabeça do morto, batendo as asas desequilibrada, procurando de algum modo se empoleirar naquela massa fétida. Cambaleando, ela enterrou as unhas na pele deteriorada sob os olhos do cadáver, e contraindo os dedos, fez com que os globos oculares fossem expostos e os olhos do defunto encarassem o policial mais uma vez.

Gritando de horror e ainda com o revolver em punho, Mauro abriu fogo na direção da coruja, que fugiu assustada pela janela. Em pânico, ele só pensava em sair daquele lugar o mais rápido possível. Procurou a porta, mas tropeçou no colchão infestado de baratas e na queda derrubou os apoios do varal que sustentavam a pequena luminária. A última visão que teve antes de morrer foi da lâmpada caindo lentamente e se espatifando no chão, bem ao lado do cadáver empapado de solvente. Em poucos segundos todo o quarto se transformou em chamas.

O Incêndio em um prédio abandonado naquele bairro miserável nunca seria noticiado na televisão. Teve apenas uma pequena e discreta nota em um jornal popularesco, em meio a inúmeras noticias de crimes hediondos. O fogo consumiu grande parte do edifício e quando os bombeiros chegaram não havia muito o que fazer. Três corpos carbonizados foram encontrados no local e levados ao Instituto Médico Legal. O cabo da polícia militar Mauro de Araújo dos Santos foi identificado com ajuda de exames de arcada dentária.

O depoimento do 3º Sargento Danilo de Souza Lemos, que estava de serviço naquela noite junto com o cabo Mauro não ajudou a elucidar o caso. As circunstâncias da morte nunca seriam esclarecidas. O inquérito não conseguiu explicar o que o cabo fazia naquele local, muito menos qual foram as causas do incêndio.

Os outros dois corpos não foram identificados. O legista confirmou que um deles pertencia a homem de idade avançada, e que possuía grave deformação na perna esquerda. A primeira versão do laudo de necropsia apontava que o homem foi morto antes do incêndio. Na segunda versão este fato foi modificado.

O segundo corpo era de um jovem entre os vinte e trinta anos, que apresentava o braço esquerdo fraturado. Um fato curioso chamou atenção da equipe de bombeiros e do próprio legista, que afirmou nunca ter visto aquele fenômeno em toda sua carreira na medicina legal. A peculiaridade não foi relatada nas anotações de necropsia, nem foi registrada nos autos do processo. Embora se tratasse de algo incomum, era irrelevante para a solução do caso. O legista fotografou e tomou notas muito mais por curiosidade do que por obrigação.

Pouca coisa sobrara do corpo do jovem, apenas um esqueleto carbonizado e torcido pela exposição às altas temperaturas. Os músculos e vísceras foram completamente esturricados e do crânio restou somente a matéria óssea, completamente calcinada e enegrecida. O que instigava todos que examinaram o corpo eram seus dentes, que permaneceram brancos, esmaltados e brilhantes, cor de marfim. Quem olhou para aquele corpo carbonizado teve a nítida impressão de que o cadáver estava sorrindo.