Cinquenta e sete, cinquenta e oito, cinquenta e nove, sessenta. Pronto. O cronômetro exibiu o número quarenta e três mil e oitocentos, e segue contando. Ele ignora que entramos no sexto ano da viagem.

Estou coberta de eletrodos e tenho tubos plásticos enfiados no nariz, na boca e nos demais orifícios do corpo humano, sem exceção.

Minha voz desapareceu, braços e pernas estão paralisados. Consigo apenas mover os olhos, é tudo o que posso fazer.

Estou acordada há sessenta dias. Completei mais de mil quatrocentas horas sem dormir, semana após semana olhando para o teto. Os computadores cuidam bem de mim, não tenho fome nem sede. Faltam setenta e cinco anos para terminar a viagem e não consigo voltar para a hibernação.

Nunca pensei em ser astronauta. Fala sério, quem quer levar uma vida dessas? Ficar meses sem tomar banho direito, comendo marmitas requentadas e cagando em sacos plásticos. Só nerds babões acham isso interessante.

Eu queria estudar publicidade. Trabalhar em uma agência famosa, participar de reuniões de brainstorming sobre market share, discutir como utilizar os teasers para capturar os prospects, estudar cases de layouts e jingles famosos, viver rodeada de artistas e virar as noites imersa em litros de café.

Durante o curso estagiei bastante, encarando o assédio moral como aprendizado e me esforçando para atender as expectativas superiores, mas quando botei diploma nas māos, o mercado de trabalho mastigou minhas esperanças. Passei meses enviando currículos e a única posição que consegui foi de secretária executiva. Trabalhava mais de dez horas por dia no escritório de design, atendendo telefonemas e digitando memorandos burocráticos. Precisei de muita paciência e motivação para segurar a barra, no entanto, nesse período conheci pessoas interessantes que acabaram por me colocar nessa enrascada espacial.

No começo achei que estava sonhando. As luzes vermelhas piscando e os zumbidos me atordoam. Algum tempo depois não tinha mais dúvidas, estava acordada e consciente. Fiquei eufórica por acreditar que a viagem chegara ao final, mas com o passar das horas ninguém apareceu e a cápsula de hibernação continuou lacrada.

Nenhum dos procedimentos de segurança me preparou para esta armadilha.

A tampa acrílica reflete a imagem de um cronômetro que fica localizado no painel de controle acima da minha cabeça. Ele marcava mais de trinta e nove mil horas quando despertei. Estimo que passaram mais de quatro anos desde o lançamento.

E pensar que tudo começou com uma piada no barzinho. O Marcelo comentava sobre a propaganda da Sunpepper. Os caras gastaram uma grana mandando uma equipe de filmagem até Plutão para gravar o novo comercial do Sunpepper Cherry. O casal de atores descia da espaçonave, abria uma bolsa de ferramentas e tiravam lá de dentro uma lata de refrigerante. Sorrindo forçadamente bradavam o slogan da campanha: Sunpepper Cherry “o sabor sedutor do sistema solar”. O Marcelo criticava cada detalhe da peça publicitária, desde a péssima escolha dos atores até a cacofonia do slogan.

— Porque você não faz melhor? — perguntei, meio embriagada.

— Claro que eu consigo fazer melhor, só não me deram a oportunidade — ele respondeu, tomando um gole de cerveja.

— Muito bem gênio incompreendido, bancar a vítima não vai te levar a lugar algum. Porque não faz uma proposta aos diretores? Esse é o momento. A Space-Cola está perdendo mercado e tem muita grana para investir.

— Já pensei nisso, mas preciso amadurecer a idéia, estudar melhor a pegada do concorrente para propor algo inovador — e falava alto, estalando os dedos no ar, simulando um surto de inspiração. Ridículo.

— Eles foram ousados. Quanto tempo deve demorar uma viagem dessas, um ano? Pelo pouco que entendo de astronomia não deve existir lugar mais longe, não é? — ironizei.

Marcelo me encarou por alguns segundos e exibiu um sorriso, arregalando os olhos, e me tascou um beijo na boca.

— Já sei o que vamos fazer! — Ele gritou.

Faz meia hora que tive a impressão de ouvir um som diferente vindo do corredor. Será que alguém acordou? As luzes da nossa sala estão apagadas. Mesmo na penumbra consigo ver um pedacinho da cápsula do Marcelo quando estico os olhos para a esquerda. Na direita está minha amiga Francine, que continua hibernando. Mais à frente vejo que a porta da sala está aberta e o corredor lá fora também se encontra às escuras, exceto pelas pequenas luzes coloridas que piscam por todos os lados.

O zunido monótono que permeia o salão é interrompido às vezes por chiados e bipes eletrônicos. Acredito que vem das máquinas que nos mantém vivos e que tomam conta da nave.

Não faço ideia do problema que ocorreu na minha cápsula, talvez algum gênio resolveu economizar e colocou fusíveis mais baratos nos circuitos.

Eu só queria uma trabalhar e ter uma vida confortável. Simples, não? Infelizmente a realidade mostrava a toda hora que não seria fácil. O escritório me demitiu assim que contrataram outra funcionária que topou ganhar menos. Nem o namoro com o Marcelo ajudou muito. Ele disse que tentou intervir, e que pediu para me manterem no cargo. Duvido muito. O perfil dele não é esse. Com certeza ele teve medo de se indispor com o chefe e não quis se envolver. Ele é um cara legal, gosto dele, mas essas atitudes me irritam profundamente.

Com a minha ajuda o Marcelo bolou um projeto ambicioso para a nova campanha da Space-Cola. O cenário do novo comercial era Próxima b, planetinha ordinário extra solar, pouco mais de quatro anos-luz de distância.

Quando essa proposta surgiu eu achei absurda, impensável, que só loucos aceitariam. Pois bem, três anos depois eu mesma embarquei no foguete com ele.

Outra vez. Ouvi o mesmo barulho metálico. Agora tenho certeza que tem alguém perambulando pela nave. Quem deve ser? Descarto a possibilidade de ser o Marcelo ou a Francine. Sobraram Cláudia, Miguel e Wesley. Não devíamos estar acordados, com certeza não. Falta muito tempo para acabar a viagem.

Próxima b era conhecido e explorado pelos nanorobôs há décadas, mas nunca foi visitado por seres humanos. Espaçonaves não tripuladas microscópicas levavam cinco ou seis anos para chegar até lá, cruzando o espaço em velocidades próximas da luz. a proposta do Marcelo exigia a presença de humanos nas naves, o que trazia sérias limitações técnicas. Demoraria uns oitenta anos para a equipe chegar até o set de gravação e filmar o novo comercial da Space-Cola. Os investidores não se incomodavam com a demora, porque o importante mesmo era o burburinho causado pelo lançamento do foguete, isso era suficiente para promover a bebida açucarada.

Segundo as pesquisas de marketing o faturamento para os dois anos após a partida dos astronautas seria suficiente para recuperar o investimento realizado. O aumento nas receitas era estimado na faixa de quarenta e cinco por cento. Danem-se os astronautas e o próprio comercial, até mesmo porque a missão era extremamente arriscada e não havia grandes probabilidades de sucesso. Pior, se acontecesse alguma tragédia durante a viagem era capaz das vendas aumentarem ainda mais.

O presidente da Space-Cola aprovou a campanha com orçamento de vinte bilhões.

Agora o som está mais perto. Ouço mais bipes e assobios eletrônicos. Um vulto passou pelo corredor. Junto todas minhas forças para gritar, mas não consigo. Minha boca permanece fechada.

Quem quer que seja não percebeu a minha presença. Tomara que eu tenha outra chance.

Viajar até Próxima b, descer e gravar o comercial tomando Space-Cola. Embarcar e voltar para a Terra cento e sessenta anos depois. Qual a vantagem para os loucos que toparam esse trabalho? Ofereceram uma bela quantia depositada mensalmente, que ficaria rendendo juros durante todo o período da missão. Conseguiram também isenção fiscal e o resgate do pagamento ficava livre de imposto de renda. Os selecionados acumulariam alguns bilhões ao final da empreitada. Adeus trabalho! Minha conta bancária se decidiu sozinha, eu custei um pouco mais para aceitar porque a família não colaborou.

Reconheço o vulto que circula pela nave. É um robô de manutenção. Ele caminha pelos corredores inspecionando conexões, válvulas e sistemas. Tem a aparência de uma aranha, ou melhor, um camarão metálico de um metro e noventa que anda sobre rodinhas. Os braços multiarticulados e antenas sensoriais chafurdam cada canto da nave. Ele passou sete vezes pela frente da sala de hibernação nas últimas doze horas, muito mais do que o normal. Como pode demorar tanto tempo para notar que estou com problemas? O imbecil continua zanzando para lá e pra cá, sem se dar conta…ei, espere aí.

Ele parou na frente da porta.

Minha mãe rejeitou minha proposta desde o início

— Você é louca — ela disse.

— É uma oportunidade incrível. Vamos recomeçar nossas vidas com dinheiro suficiente para fazer o que quisermos. Eu vou de qualquer jeito mãe!

— Pois bem, faça como quiser — ela respondeu, fixando os olhos na tela do smartphone que carregava nas mãos.

Senti um nó na garganta, mas mantive minha decisão. Ela se voltou para o aparelho e fingia dar atenção a um vídeo de cachorrinho que recebeu pela rede social, ignorando minha presença à sua frente. Eu insisti.

— Você sabe que a viagem dura cento e sessenta anos? — perguntei.

Sem tirar os olhos do smartphone ela respondeu:

— Sei, vi na televisão. Boa viagem.

Virei as costas e saí pela porta do quarto, esperando que ela me chamasse de volta, mas minha mãe permaneceu em silêncio.

O robô entrou na sala. Minha mente grita, esperneia, mas o corpo ignora todo o esforço. Ele circula pelos os cantos da sala e por alguns segundos se detém ao meu lado, de frente para a cápsula de hibernação do Marcelo. Minha cabeça quase explode com o esforço mental que faço para tentar mover um dedo, esboçar um sorriso, emitir um som. Não tenho sucesso. Ele se move um pouco e fica na minha frente, meu Deus, só tenho essa chance. A máquina precisa me ver, entender que estou acordada! Mexo os olhos com toda força, pisco, estico as pálpebras repetidamente, desesperada por um pouco de atenção.

Seis meses antes da data prevista para o lançamento a tia Suzana se foi. Encontrei minha mãe no velório e fazia dois anos que não nos falávamos.

Naquela tarde saímos do crematório e fomos para minha casa. Abrimos uma garrafa de vinho e conversamos muito, fizemos um balanço de nossas vidas e de tudo o que passamos juntas, desde minha infância até o divórcio dela com o papai. Relembramos as alegrias e dificuldades desse caminho. O tempo em que, por razões financeiras, moramos juntas com a tia Suzana. Rimos das inúmeras vezes que fomos ao fórum para resolver o problema da pensão e de todas as confusões que papai arranjava, até por fim, quando ele se casou novamente e saiu para sempre das nossas vidas. Abrimos várias garrafas naquela noite.

Depois de muita reflexões e lágrimas ela topou. Precisávamos reciclar nossas vidas. Nada melhor do que começar em um mundo novo e com a conta bancária recheada. Aquela proposta louca da Space-Cola começava fazer sentido.

Luzes piscam no peito do robô. Ele emite zumbidos prolongados. Parece que me viu. Sim claro, ele sabe que estou acordada. Arregalo os olhos para que seus sensores de movimento entendam que eu estou alerta, imóvel, porém ciente de tudo que se passa ao meu redor. Ele gira um dos braços robóticos e se conecta à minha cápsula.

Não podia levar minha mãe para Próxima b, por isso viajamos até a Suíça onde ela ficaria adormecida até a minha volta. A clínica de hibernação ficava na beira de um lago de águas azuladas, nos arredores de uma cidadezinha muito charmosa. O lugar ideal para passar cento e sessenta anos.

Minhas mãos tremiam na hora em que ela deitou na cápsula, uma mistura de medo e ansiedade. Dei-lhe um beijo de despedida e saí em direção ao aeroporto. Voei direto para Havana, onde começava o treinamento e preparativos para a viagem espacial.

Tive muita sorte. Ele me viu e sabe que houve algum problema. Posso ver com clareza as imagens no visor acoplado ao seu peito. Aparece minha foto e parâmetros vitais. Observo os gráficos, dezenas de colunas em verde transitando pelo monitor. Uma coluna vermelha surge e a imagem congela. Aperto os olhos para tentar entender o que é aquilo. Mal consigo ler as letrinhas pequenas, ser…, serot…, serotonina, isso, o monitor denuncia que o gráfico dessa tal serotonina está em vermelho. Uau! O robô descobriu o defeito! Estou salva!

Ele se afasta, dá a volta e some por trás da cápsula. Meus globos oculares acompanham seus movimentos. O leito balança e vibra. Escuto um estalo e acompanho as luzes se movendo, não na verdade eu estou me movendo. O robô desacoplou a cápsula e está me conduzindo para fora da sala. Quero gritar de alegria. Em vão, minha cordas vocais continuam paralisadas e o tubo plástico que atravessa minha garganta impede qualquer manifestação. Quando sair daqui vou agarrar e beijar essa máquina. Ele está empurrando a cápsula pelos corredores da nave. Não sei como vão me consertar, posso ficar com sequelas, mas sei que vou sobreviver. Sinto as lágrimas escorrerem pela minha face.

Minha mãe topou o desafio de começar de novo. Ela foi corajosa. Nada garante que o mundo daqui a cento e sessenta anos será melhor, mas precisamos tentar. Esse mundo não nos pertence mais, queremos outra chance no futuro.

Estranho, não consigo reconhecer esta parte da nave. Não parece a ala médica. O robô me colocou numa sala escura sem janelas. Ouço o barulho de uma sirene. O som agudo irrita. Escuto um estalo metálico forte e sinto um potente solavanco que me faz ficar zonza por alguns segundos. Tudo parece girar.

Demorei alguns segundos para perceber a tragédia. Vejo a nave se afastando lentamente enquanto meu casulo dá voltas em torno do próprio eixo. Raiva e ódio se misturam no meu coração. A nave vai ficando cada vez mais longe e o medo cresce, o pavor me domina. Assim como uma garrafa vazia, fui descartada em alto mar, ou melhor, no vácuo entre as estrelas.

 

Mãe, me desculpe, eu falhei.