Guilherme sempre foi magrelo. Tinha ombros arqueados para frente, cabelo crespo, nariz achatado e pele morena. Coisa de família, que puxou um pouco o lado do avô, um caboclo nascido em Cuiabá. Guilherme nunca aceitou essa herança.

Aos quinze anos fez sua primeira intervenção estética. Queria modificar as pernas finas e panturrilhas secas. Depois de aporrinhar os pais durante meses eles consentiram que o filho fizesse um tratamento de reprogramação genética muscular. O Doutor receitou eletroestimulação dos nervos e prescreveu injeções com promotores de crescimento. As pernas engrossaram tanto que às vezes perguntavam se ele era jogador de futebol.

Quando fez dezoito pediu de presente de aniversário um tórax torneado e musculoso. O esteticista consultado indicou um transplante autóctone com fibras musculares produzidas em laboratório. Depois de sete horas de cirurgia esculpindo músculos e tendões, ele saiu do centro cirúrgico com a carcaça remodelada, com Peitorais e Deltóides alongados, Serrátil hiper definido e barriga tanquinho.

Os anos passavam e Guilherme continuava viciado em tratamentos estéticos e cirurgias plásticas. Fez clareamento simbiótico dos dentes com implante de bactérias fluorescentes, que branqueavam o esmalte e faziam o sorriso brilhar no escuro. Raspou a cabeça e implantou microfibras óticas no lugar dos cabelos. Agora conseguia mudar a cor e o visual do penteado por meio de um aplicativo do celular.

Mesmo depois de tanto investimento, aos vinte e três anos continuava sozinho. Possuía excelente condição financeira e morava perto da praia com Elizabeth, uma gata persa que o acompanhava desde a adolescência. Nunca teve namorada fixa, vivia entre rolos e encontros esporádicos sem importância. Ele se interessava por mulheres, mas sempre encontrava problemas intransponíveis que impediam aprofundar o relacionamento.

Márcia era baixinha, tipo mignon, cabelos curtos e lisos, seios médios e coxas torneadas. Falava francês, e gostava de frequentar restaurantes de comidas exóticas. O flerte começou ainda na faculdade, porém Guilherme logo descartou a moça. O olhar da morena era sedutor, mas os cílios desalinhados incomodavam. Ele abraçava a menina, mas evitava tocar nas proximidades do cotovelo da moça. Ele achava que a pele naquela região era áspera demais.

Roberta era loira, alta e esguia, contudo, mesmo com os implantes de chips bucais exalando aromas de frutas no máximo, o hálito da garota não agradava.

E assim, pretendente após pretendente, as mulheres sucumbiam às neuras perfeccionistas do rapaz.

Umas eram altas demais, outras muito baixas. Algumas magrelas e deselegantes, outras excessivamente musculosas e carcaçudas. O homem vivia em conflito.

Um amigo muito próximo comentou que o problema talvez fosse “com as mulheres” e sugeriu que Guilherme abrisse a mente para relacionamento mais diversos. No primeiro momento ele estranhou a proposta, mas resolveu experimentar.

Na academia conheceu um rapaz interessante, mas que não sobreviveu à uma avaliação mais criteriosa: Saltavam aos olhos de Guilherme os milímetros de gordura que recobriam a musculatura abdominal do menino. Uma manchinha no rosto também prejudicava a aproximação.

Outros garotos também foram descartados. Um tinha o alinhamento assimétrico das orelhas, outro apresentava os pulsos levemente afinados. Cabelos ressecados, pelos em excesso ou pelos escassos. Nem os homens agradavam Guilherme.

Aos trinta e três anos ele não conseguia se relacionar com mais ninguém. A depressão o impedia de sair de casa.

Uma bela tarde, enquanto comprava ração para Elizabeth, Guilherme teve uma ideia excitante quando viu um kit para clonagem de animais na prateleira da Petshop. O produto era destinado às crianças e servia para clonar animais velhos ou doentes. Guilherme pegou a caixa nas mãos e foi consultar o balconista da loja.

— Boa tarde amigo, voce pode me dar uma informação? — perguntou — Esse kit serve para clonar todo tipo de animal?

— Depende, esse aí serve só para aves pequenas, tipo periquitos ou calopsitas — respondeu o vendedor — Temos também para peixes, hamsters, cães e gatos. Qual o animal que o senhor deseja clonar?

— É um animal grande — Guilherme falou, coçando a cabeça.

— É um cachorro ou gato?

— Um cachorro, cachorro bem grande — completou, olhando para os lados para conferir se ninguém acompanhava a conversa.

— Hum, entendi — disse o balconista, piscando o olho para Guilherme — me acompanhe por favor.

Eles caminharam entre as prateleiras até o fundo da loja e pararam de frente a gôndola que exibia os produtos CloniPet, “kits rápidos para clonagem de animais de estimação”.

— Olha — continuou o balconista, sussurrando — se o senhor quer clonar um humano tem que levar dois desse aqui — e pegou uma caixa grande que exibia a foto de um cão Bernese — esse é para cães de mais de trinta quilos.

— E funciona mesmo? — Guilherme perguntou.

— Claro, é só fazer umas adaptações. Sua casa tem banheira ou piscina?

— Não — respondeu.

— Então trate de arranjar. Não está incluída no kit.

Guilherme pegou os kits e no caminho para casa comprou uma piscina plástica inflável. Ao chegar leu cuidadosamente a bula. Diluiu um pozinho vermelho em água filtrada e deixou a mistura em banho maria por trinta minutos, depois raspou a bochecha com um cotonete e depositou o material no tubo eppendorf que veio com o kit. As enzimas iniciaram a replicação das células e por quinze dias ele teve que manter o tubo em local arejado longe da luz direta do sol.

No décimo sexto dia ele observou um aglomerado gelatinoso no fundo do tubo. Transferiu o conteúdo para a piscina plástica, colocada de maneira improvisada no meio do quarto. Fez as soluções de anabolizantes e vitaminas mais concentradas, seguindo as orientações do balconista, e misturou tudo.

Vinte dias depois ele observou um feto se formando no fundo da banheira. Mais sete dias e o corpinho assumiu o tamanho de uma criança de cinco anos. Ao final de dois meses o clone estava maduro, com quase oitenta quilos e cerca de um metro e sessenta de comprimento

No dia programado para o nascimento, com os olhos marejados, Guilherme retirou o clone da piscina, secou e limpou a criação. A cópia olhava para os todos os cantos, sem entender o que se passava. Apalpava os próprios braços as pernas, as maçãs do rosto, remexendo os dedos e alisando os cabelos. Quando menos esperava Guilherme lhe deu um beijo demorado na boca.

— Eu não aguentava mais esperar — disse Guilherme.

O clone se levantou da banheira assustado e caminhou pelo quarto. Olhou para o espelho sobre a cama e se comparou com Guilherme. Havia diferenças óbvias. O clone era magrinho, tinha pele morena e pernas finas, tal qual o Guilherme original.

— Não se preocupe, essas imperfeições serão corrigidas com o tempo — disse Guilherme — seremos uma dupla linda, simbiótica e inigualável.

Guilherme agora examinava cada detalhe do corpo do clone, imaginando o que poderia melhorar. Ele suspirava com a possibilidade de aplicar as últimas tecnologias do campo da estética molecular no companheiro. Técnicas e produtos de vanguarda, que não existiam quando ele era jovem, e que prometiam resultados deslumbrantes.

Ele pegou o clone pelas mãos e juntos deitaram na cama.

Os dois o se desgrudaram nas primeiras semanas do novo romance. Pensavam e agiam da mesma maneira, como um casal de bailarinos dançando uma valsa. Conversar nunca foi tão fácil, as frases e declarações se completavam automaticamente. Gostos idênticos e lugares preferidos combinando como chave e fechadura. Harmonia plena e sublime.

Guilherme batizou o clone de “Guilherme”, porque não queria nenhum nome estranho na relação. Se divertiam quando o telefone tocava e alguém do outro lado da linha procurava por Guilherme. A pergunta irônica sempre surgia: o novo ou o velho? O clone percebeu que Guilherme se incomodava com a palavra “velho” por isso passou a chamar o companheiro de “Guilherme original”, recebendo elogios pela ideia.

Guilherme original insistia que o companheiro se matriculasse em uma academia de ginástica. A cópia resistia, dizendo que as cirurgias plásticas e a reconstrução orgânica com biogel consertariam todos os defeitos, e que ele nem se considerava tão fora de forma assim. O clone também não tinha muito saco para a rotina de depilações de barba e peitoral que Guilherme original insistia em impor. Os pneuzinhos da gordura abdominal do parceiro viraram motivos de piadinhas e o clone foi se irritando aos poucos.

Uma noite, após jantar, Guilherme original trouxe um envelope e entregou ao clone. Era o contrato do bioesteticista molecular que faria enxertos e a reprogramação de DNA no novo Guilherme. Músculos definidos, menor percentual de gordura, clareamento da pele e até a redução de odores das axilas estavam previstos no pacote. O original sorria e falava sem parar, tomado de euforia, potencializada pelo vinho francês. Não reparou que o cônjuge franzia a testa enquanto lia os papéis…

Na manhã seguinte Guilherme original acordou quase uma da tarde. Estava sozinho. Procurou a cópia no banheiro, na cozinha e na sala. Nenhum sinal do clone. O desespero bateu e ele começou a tremer. Não conseguia imaginar o que tinha acontecido, tinha medo de perder seu pupilo, sua bela criação.

Ao passar pela sala encontrou um bilhete sobre a mesa. Engoliu seco e suas pernas bambearam. O pânico tomou conta de sua mente. Pegou bilhete e constatou que a letra era dele mesmo.

Leu a mensagem de despedida deixada pelo clone e baixou a cabeça, soluçando sem parar enquanto as lágrimas escorriam pela face. As frases curtas e incisivas destruíram por completo a esperança que Guilherme nutria de encontrar o amor da sua vida. O companheiro agradecia os momentos felizes que estiveram juntos, curtos porém intensos, mas declarava que precisava de um tempo para pensar, e que seria melhor cada um seguir seu próprio caminho.

Guilherme chorou por semanas, meses e anos. Abandonado por ele mesmo, sofreu com a solidão pelo resto da vida.