Silvério chegava sempre antes das sete na repartição. Não emendava feriados e nunca faltou ao trabalho. Quem o conheceu ainda jovem, logo que ingressou no serviço público, sabia que aquele menino tinha potencial para ser um grande administrador. Suas atitudes confirmavam que ele acabaria cedo ou tarde ocupando altos cargos no governo, ou apodreceria na cadeia.

Possuía ambição exagerada e uma inconsequente vontade de ficar rico. Sempre soube puxar saco e tapetes. Era habilidoso no tráfico de influência e se metia em todo tipo de falcatrua. Construiu uma lucrativa carreira no Ministério dos Transportes e agora, aos sessenta e tantos anos, era amigo íntimo de vários políticos e empresários corruptos.

Passavam das onze da noite. Silvério dispensou a secretária e revirava caixas de papelão recheadas de documentos. O gabinete ficava no oitavo andar de um prédio na Esplanada dos Ministérios, decorado com cadeiras velhas e desgastadas, armários entulhados de papéis e com a foto do Presidente da República pendurada na parede, atrás da mesa principal. Grande parte do edifício estava às escuras. Silvério estava sozinho naquele andar, ou pelo menos era isso o que ele imaginava.

Ele podia se aposentar e curtir os milhões que juntou ao longo da vida, mas a ganância continuava impulsionando o homem a ir cada vez mais fundo no mundo da corrupção. Aquele seria outro ano lucrativo para os negócios. O novo barco de quarenta pés foi pago à vista, em dinheiro. Passagens para a Europa compradas e hotéis reservados. Seria um pequeno descanso de quinze dias até o início dos trabalhos na Comissão de Orçamento. Só que um pequeno incidente atrapalhou o esquema.

Um empreiteiro foi prejudicado com as negociatas de uma licitação e prometeu denunciar a fraude. Silvério conversou, apaziguou e convenceu o sujeito desistir da denúncia. O problema é que a ex-mulher do empresário abriu a boca. Silvério ficava puto com o pessoal que não sabia guardar segredo. Os caras tinham mania de contar vantagens, bebiam igual cavalo e depois abriam o bico para qualquer um, principalmente para esposas e amantes.

— Amadores — ele pensava.

Planejaram assassinar a mulher, mas ela foi mais rápida e conseguiu se safar. A dondoca apareceu num programa de entrevistas e contou tudo o que sabia. Conquistou seus cinco minutos de fama, tomou um processo, mas foi inocentada.

Ficou ruim para o empreiteiro. Ele não teve outra saída a não ser colocar o nome do Silvério no meio. Alguns políticos estavam de saco cheio do Silverinho e lhe viraram as costas. Afinal alguém tinha que levar a culpa, de preferência sozinho. Nas últimas semanas o nome do Silvério não saia dos telejornais, sob acusação de ser o chefe de mais uma das inúmeras quadrilhas que roubavam o dinheiro público na capital federal.

Perto da meia noite Silvério tinha separado alguns papéis, destruído bastante material comprometedor e se preparava para ir embora. Ele tinha que deixar tudo “limpo” porque vazou a informação que no dia seguinte a Polícia Federal estaria na porta da sua casa. Ele seria detido e levado para a carceragem, algemado, sob os flashes dos fotógrafos dos jornais matinais. O gabinete seria vasculhado e caixas e caixas de documentos seriam encaminhadas para a perícia.

A prisão não era problema. Seus advogados estavam preparados e Silvério conhecia os juízes designados para o caso. Ele perderia algum dinheiro, mas estaria solto em alguns dias e o processo duraria anos para ser julgado.

Ele desligou o computador, levantou-se da mesa e pegou uma pasta de plástico vermelha cheia de documentos e anotações pessoais. Pretendia encontrar com os advogados ainda naquela noite para discutir como deveria se comportar no momento da prisão. Silvério apagou a luz e saiu do gabinete em direção ao pequeno hall de entrada, onde ficava a mesa da secretária.

No momento que saiu da sala Silvério se deparou com vulto de um homem sentado no sofá, imerso na penumbra da antessala.

Quem é o senhor, O que deseja? ele perguntou, elevando o tom de voz.

O homem descruzou as pernas e deixou de lado o jornal que estava folheando. No canto inferior da capa aparecia a foto de Silvério sem camisa, no deck de uma lancha, exibindo a barriga avantajada e tomando champagne. O título da matéria chamava atenção para o padrão de vida do servidor público, que era claramente incompatível com seus vencimentos.

Calma Silvério. Tenha calma. Não há motivos para se preocupar.

Se o senhor é da polícia sabe que só vou falar na presença do meu advogado gritou Silvério.

O homem se levantou e estendeu a mão para cumprimentá-lo. O indivíduo vestia um terno branco muito bem ajustado, com destaque para a gravata em vermelho vivo brilhante. Sapatos e meias também brancos completavam o figurino do cidadão.

Não sou da polícia meu caro. Quanto a isso posso garantir.

Silvério arregalou os olhos e sentiu o coração bater mais forte.

Não conheço o senhor, então por favor saia daqui agora! Ele disse, virando as costas e voltando para o gabinete.

Silvério trancou a porta e foi até a mesa do telefone. Enquanto procurava o ramal da segurança, ouviu os ruídos da fechadura girando e observou a porta abrindo lentamente.

— Quem lhe deu a chave dessa porta?— gritou Silvério, segurando o telefone com a mãos tremulas.

O homem de terno branco se aproximou em passos lentos e suaves, ignorando o nervosismo do corrupto.

Posso me sentar? o homem perguntou, ao se posicionar na frente da mesa principal.

Um cheiro azedo e ardido tomou conta do ambiente. Silvério encarou o sujeito em pé à sua frente e sentia gotas de suor escorrerem pelo pescoço. Ele respirou fundo, deixou o telefone sobre a mesa e se sentou. A luz do corredor iluminava o homem por trás, revelando apenas a silhueta e mantendo o rosto do desconhecido na penumbra da sala.

— Calma Silvério, vamos conversar — ele disse.

Por favor acomode-se — e apontou para a cadeira à sua frente.

O homem sentou-se, retirou um cigarro do bolso e perguntou:

Incomoda se eu fumar?

— É proibido fumar nas repartições públicas respondeu Silvério, enxugando o suor com a manga do paletó mas fique a vontade, eu também costumo dar minhas tragadas depois que a secretária vai embora. Estou tentando parar.

O estranho acendeu o cigarro. Deu uma longa baforada e cruzou as pernas olhando fixamente para Silvério.

Não faz ideia de quem eu sou? perguntou.

Não te conheço, mas imagino o que você que quer de mim. Falei com teu pessoal que não vou entregar ninguém. Mande um recado para eles, eu vou…

O homem ergueu a mão, mostrando unhas grandes e pontudas. Veias escuras azuladas saltavam por entre os dedos e riscavam a pele enrugada. Com a voz rouca e um timbre anasalado ele interrompeu do diálogo.

Deixe de besteira Silvério. Minha visita aqui hoje não tem nenhuma relação com seus negócios podres. Posso te adiantar que o caso é mais delicado e minha tarefa é mais nobre.

O que você quer dizer? perguntou Silvério, que permanecia com os olhos fixos no estranho.

O homem se aproximou da mesa, exibindo um sorriso discreto recheado de dentes amarelados.

Eu sou a única certeza que os seres humanos podem ter durante toda a vida. Posso garantir que nessa noite você vem comigo.

Silvério se contorceu na cadeira. Nas últimas semanas sua vida ruiu e a farra acabou. Ele sabia de muita coisa. Os anos de trabalho com ladrões lhe permitiram ter acesso a todo tipo de prova que podia encarcerar todo mundo. Senhas e números de contas no exterior, nomes dos doleiros, contatos espúrios, gravações de conversas com outros criminosos, inclusive traficantes de drogas. A lista era imensa. Ele sabia que era um arquivo vivo e muita gente queria eliminá-lo. Silvério nunca foi adepto da violência, mas depois das denúncias e da iminente prisão, passou a se precaver. Enquanto ouvia o homem de terno branco ele tateava discretamente a escrivaninha até suas mãos encontraram o puxador da gaveta.

— Olha, eu sou um homem de negócios — disse Silvério — você me parece um sujeito fino e educado, aposto que também quer negociar. Podemos nos entender. Fica bom para todo mundo, correto?

O homem fechou os olhos e balançou negativamente a cabeça.

— Dessa vez não tem negociata meu amigo, seu tempo acabou. Está pronto para vir comigo? perguntou.

Silvério coçou a barba enquanto se ajeitava na cadeira. Precisava agir rápido. Com um movimento brusco sacou a pistola 380 que escondia na gaveta e disparou três vezes na direção do sujeito. O impacto derrubou o homem no chão e o corpo caiu próximo da mesa.

Vai pro inferno desgraçado! gritou.

O cheiro de pólvora contaminou o ambiente depois que os tiros ecoaram no corredor. Silvério correu até a porta para se certificar que não havia ninguém no corredor. O barulho foi intenso e os seguranças apareceriam em segundos. Era preciso fugir dali o mais rápido possível.

Mas que merda! pensou.

Ele pegou a pasta vermelha e se dirigiu para a porta do gabinete. Quando passou pelo hall ouviu uma gargalhada maliciosa que alfinetava os ouvidos de tão estridente e aguda. O corpo gelou e suas pernas bambearam. Ele olhou para trás e pode ver o homem de terno branco se contorcendo a cada risada, deitado ainda com a face voltada para o piso.

O homem se virou, exibindo o peito chamuscado pelos projéteis. Limpou um filete de saliva que escorria pelo canto da boca e continuou.

Vamos Silvério, não há tempo a perder. Venha logo comigo. Temos um longo caminho e você tem muitas explicações a dar do outro lado disse, sentado no chão e esticando o braço na direção do funcionário público ladrão.

Com mil demônios, o que é você? O que quer de mim?

O homem levantou e bateu com as mãos no peito na tentativa de limpar a camisa e o paletó. Caminhou pela sala olhando para o piso. Encontrou o cigarro que caiu das suas mãos ainda aceso e abaixou para pegar. Deu outra baforada e continuou.

Alguns dizem que sou um anjo… outros me chamam de demônio. Pura bobagem, seja lá como queiram me chamar, estou aqui para ajudar os vivos durante a inevitável transição para outras dimensões — Falou.

Silvério baixou o braço e deixou a arma cair, suas pernas fraquejavam.

— Vamos, sua hora chegou — completou sorrindo o homem de terno branco.

— Estou confuso, você é…

— Isso mesmo o que voce pensou. Não esperava alguém vestindo um capuz e manto negro, não é? Era só o que me faltava — disse, cuspindo uma golfada de de sangue que se espalhou pelo tapete — meu amigo, não preciso carregar foice!

Silvério baixou os olhos, pensativo. Por mais estranho que fosse ele compreendeu. Como todos aqueles que enfrentam seus últimos momentos, um turbilhão de pensamentos inundou sua mente. Fragmentos de sua existência pipocavam na memória, desde a infância até os dias mais recentes.

— Quer dizer que acabou?

— Exato

— Mas eu…eu posso me despedir da minha família? — perguntou.

— Não, e pode ser que demore alguns milênios para vocês se encontrarem novamente. Agora, não seja ridículo, você nunca ligou para eles. Teu casamento é uma farsa e seus filhos só o toleram por causa do dinheiro. Fortuna construída com dinheiro roubado — o homem gritou — Você também não tem nenhum amigo verdadeiro e aqueles que lhe tinham alguma consideração foram abandonados há muito tempo.

O corrupto caminhou até a janela. Suas mãos tremiam e percebeu que a testa estava gelada ao limpar novamente as gotas de suor. Lá fora as luzes do Congresso Nacional iluminavam debilmente o espelho d’água. A Esplanada dos Ministérios estava deserta, exceto por um ou outro sentinela que se mantinha a posição de vigília, tomando contas dos palácios públicos.

Silvério encarava o próprio reflexo no vidro e as lágrimas começaram a rolar pela face.

— Quer dizer que nunca mais vou ver meus filhos…O que eu fiz da minha vida? — indagou.

O homem de terno branco se aproximou da janela e ficou ao lado de Silvério, olhando para o cenário lá fora. O cheiro azedo era insuportável e Silvério sentia o estômago embrulhar.

— Posso falar a verdade? Você desperdiçou uma das mais poderosas forças da natureza meu caro. O fenômeno da vida é extremamente raro neste universo de bilhões de galáxias. Vida consciente tal como a dos humanos então! Vixe, raríssima.

— E agora, minhas coisas, o que vai acontecer?

— Essa é a parte que eu acho mais engraçada. Nós deixamos sinais, mas ninguém parece escutar. Na hora da morte é que a maioria se toca que não levará nada do que juntou. Seu dinheiro só vai servir para aumentar a discórdia que existe na sua família. Eles brigarão durante anos, disputando cada centavo dessa herança maldita — O homem falava, agora com a voz suave, arranhando o vidro da janela com suas unhas pontiagudas.

O medo crescia e logo se transformou em pavor. Espasmos musculares assaltavam as pernas e braços de Silvério. O coração disparado tentava bombear sangue pelo corpo, oxigenar os tecidos, mas não conseguia cumprir a tarefa e ele sentia falta de ar. A pressão arterial aumentou e as têmporas latejavam. O estômago não resistiu e Silvério vomitou no canto da janela. O vômito e as lágrimas se misturavam sobre o carpete. Depois do terceiro jato Silvério apoiou as mão na janela e respirou fundo até se recompor. Limpou a boca com a gravata, olhou para o homem e disse.

— Mas você também disse que eu tenho explicações a dar, como assim?

O homem voltou para a escrivaninha e sentou. Tirou mais um cigarro do bolso do paletó e acendeu.

— Veja bem meu caro, sua conduta não tem sido digna de elogios, mas não se preocupe por agora, você terá grande parte da eternidade para redimir seus erros e cumprir suas penalidades. Vamos me dê a mão e seguiremos juntos.

Silvério se voltou para o homem e franziu a testa.

— Como assim penalidades?

— Olha, eu não devia adiantar nada por agora, mas confesso que tenho certa estima por você — e deu uma longa baforada no cigarro — Não tem mistério nenhum, a maior parte das religiões no mundo fala sobre isso e os princípios são comuns em todas as crenças.

— Explique melhor o que quer dizer.

— Olha Silvério, existe um mecanismo de compensação para as condutas dos seres vivos neste Universo. Quem pratica o mal deve aprender a corrigir suas ações, por isso deve retornar quantas vezes forem necessárias para se purificar. No seu caso imagino que você deverá reencarnar na miséria, com muitas dificuldades para sobreviver. É preciso redenção. você tem que vivenciar as dificuldades e aprender com aquelas pessoas que mais despreza. Sua consciência será testada até os limites.

Silvério caminhou até a estranha figura e socou a escrivaninha com uma das mãos.

— Não! Isso não por favor. Eu não suportaria viver nessas condições. Não quero nascer pobre de novo, tudo menos isso! .

— Não sou eu quem decide essas coisas. É a regra do jogo.

— Preciso saber o que tenho fazer para salvar a minha pele. Tecnicamente ainda estou vivo não é? Me diga, como posso amenizar meu sofrimento na eternidade? — perguntou, afrouxando o colarinho empapuçado de suor.

— Silvério…Silvério…você é o responsável pela desgraça de milhares de famílias. Você rouba desde os dezesseis anos de idade. Está metido em dezenas de encrencas, vive acobertando grandes criminosos e sofre de graves desvios de caráter. Não há muito o que fazer nesses últimos momentos.

— E se, se eu me arrepender? Eu posso me arrepender em vida e com certeza terei mais chances.

— É pouco. Fraco demais. É necessário materializar seu arrependimento em açőes concretas e isso leva tempo. Deixe de besteira e venha comigo. Já estamos atrasados.

— Não. Espere um pouco, eu sei o que vou fazer!

Silvério abriu a pasta vermelha e espalhou vários papéis sobre a mesa. Eram recibos, extratos bancários e alguns cartőes. Ele pegou uma folha em branco e começou a escrever.

— Estes aqui são os caras que estão metidos nesse rolo junto comigo — ele falava, fazendo esforço para suportar as dores no estômago e na cabeça — Vou redigir minha confissão e deixar a lista com o nome de todos eles. Estas são as contas no exterior onde eu guardo todo o dinheiro desviado. Amanhã quando a polícia chegar terão acesso a toda movimentação, códigos das transaçőes e registros. Está tudo aqui, todo o dinheiro será recuperado!

O homem de terno branco observava Silvério

— Não é suficiente — disse — É imprescindível que exista um ato mais convincente de redenção da sua parte Silvério. Se não fosse a minha visita aqui hoje você não estaria nem um pouco preocupado — completou — Desista homem. Olhe para você. Está nas últimas. Seu corpo está dando sinais de que precisa vir comigo.

Silvério ruminava os pensamentos em busca de uma solução para o problema. O ladrão estava acostumado com uma vida de luxos e extravagâncias. Viagens ao exterior, restaurantes sofisticados, roupas, jóias e carros esportivos. Silvério e sua família não economizavam quando se tratava de esbanjar o dinheiro fácil que ganhava, embora várias vezes atrasavam o pagamento dos empregados. A expectativa de passar a eternidade na miséria era demais para ele.

— Tenho uma sugestão — disse o homem de terno branco.

— Diga, faço qualquer coisa para me livrar desse castigo que me espera — ele respondeu, ofegante.

— Bom, segundo meus registros sua morte seria causada por um ataque cardíaco. Excesso de peso, hipertensão e diabetes. Motivos mais do que suficientes para enquadrar alguém com a sua idade. Agora, se pretende obter algum crédito como outro lado eu proponho uma alternativa mais dramática.

— Vamos, diga logo o que pensa!

Em silêncio, o homem olhou para a janela. Silvério entendeu a mensagem logo de cara. Ele sempre foi pragmático e nunca teve medo de tomar decisões difíceis. Era parte de sua índole criminosa.

Sem dizer uma palavra ele se aproximou da janela e abriu o vidro. Uma lufada de ar seco e gelado entrou no gabinete. Ele subiu em uma cadeira, colocou as pernas para fora, no parapeito da janela, e olhou pela última vez para o céu estrelado de Brasília.

— Até breve e obrigado pela dica.

Poucos segundos se passaram até que o barulho de uma forte pancada anunciou o fim da estória do funcionário corrupto. Os cento e quarenta quilos de Silvério se transformaram em uma massa amorfa e ensanguentada, espatifada ao lado de um sedan preto estacionado no pátio principal. O homem de terno branco olhou pela janela e constatou aquele fato trágico. Passavam de uma da manhã. Ele recolheu os papéis e cartões espalhados pela mesa, os colocou de volta na pasta vermelha e saiu pela porta do gabinete.

Ele passou pelo hall e acenou com a cabeça para os dois seguranças que estavam no corredor, escondidos observando a cena. O homem deixou um envelope de papel pardo, volumoso, com um dos sujeitos e saiu. Ele preferiu descer pela escada.

Do lado de fora do prédio o homem de terno branco viu um morador de rua se aproximar do corpo de Silvério. O mendigo cobriu algumas partes do defunto com pedaços de jornal que usava como travesseiro. Ao longe, se ouvia os sons de uma sirene.

O homem acendeu mais um cigarro enquanto caminhava pela Esplanada. Retirou um telefone celular do bolso do paletó e fez uma ligação. Não foi preciso esperar muito e no segundo toque a interlocutora atendeu.

— Alô…sim, por aqui está tudo resolvido, o babaca acreditou…a chave funcionou perfeitamente… o desgraçado estava armado, acredita?… não…dei sorte e correu tudo bem…o colete serviu…acho que mordi a língua quando caí…estou com os cartões e as senhas…fique tranquila, os seguranças já levaram um agrado…hum…exato, ninguém sabe da existência dessas contas, acho que tem mais de cinco milhões…me encontra em casa, preciso de um banho para tirar essa murrinha de peixe, até logo”.